Um lançamento bom prá cachorro
PUBLICAÇÃO
domingo, 01 de dezembro de 1996
Agência Folha 
Se a chegada de Os 101 Dálmatas ao cinema pode provocar nos fãs do desenho o medo de que seu encanto seja quebrado, como já aconteceu em Os Flintstones, o lançamento da tradução da história que deu origem tanto ao filme quanto ao desenho só tem a acrescentar.
A Disney teve faro. Cinco anos após o lançamento do livro Os 101 Dálmatas na Inglaterra (em 1956), já produzia o cultuado desenho. O potencial da história era evidente: o que pode ser mais rico em imagens que 97 filhotinhos de dálmatas juntos? E uma vilã que tem metade do cabelo preto e metade branco (Cruela, interpretada no filme por Glenn Close)?
Mas o livro, que a editora Marco Zero está lançando (com cara de presente de Natal), tem tudo para agradar, principalmente às crianças. Numa narrativa de relativo fôlego - 141 páginas -, a autora inglesa Dodie Smith usa fina ironia para descrever o mundo humano pelos olhos de um cachorro, com trechos realmente engraçados.
Caninidade O casal de dálmatas possui um casal de donos de estimação e gosta de levá-los para passear no Regents Park. Pongo (o dálmata-pai) entende muito bem a linguagem do homem (ele havia devorado uma edição de Shakespeare), mas o contrário não acontece.
O maior mérito do livro - que não aparece no desenho - é a sua caninidade. Em passagens didáticas, o leitor aprende que, para dar à luz, a cadela escolhe um local em que se sinta segura; que as pintas dos dálmatas só aparecem depois de duas semanas de vida; que não seria possível para uma cadela amamentar 15 filhotes sem ficar esgotada fisicamente.
É nesse ponto que aparecem dois personagens ignorados pelo desenho: a cadela Perdita, que serve como ama-de-leite para os filhotes, e seu marido, que só a reencontra no final feliz da história. A logística canina da jornada para salvar os pequenos dálmatas também não aparece no desenho.


