Em time que está ganhando não se mexe. O bordão é indecente, nem tanto pelo seu teor, mas quem sabe por seu uso. Zeca Pagodinho - Rildo Hora retomam em ‘‘Zeca Pagodinho’’ o que fizeram em seus dois discos anteriores, adotando soluções que se parecem até mesmo na sequência das músicas. Abre com ‘‘Seu Balanc꒒, que à maneira de ‘‘Verdade’’ tem introdução de flauta e gaita, e o violino se faz ouvir antes do batuque. Passa então para um samba de Monarco (velha guarda da Portela) com cavaquinhos à frente. Vale mencionar a primeira estrofe: ‘‘Eu quis te dar um grande amor/ Mas você não se acostumou/ À vida de um lar/ O que você quer é vadiar’’. Seguem-se partidos altos, mais alguns temas românticos e sambas de roda.
Mas, em vez de produzirem um disco pouco inspirado, Zeca e Hora cravaram mais uma peça de resistência do samba de roda - que Zeca resolveu chamar agora de ‘‘samba-curimba’’ - contra o crossing-over mercenário do pagode paulistano-uberlandense.
Na verdade não há mesmo comparação. Zeca é um mestre inato do partido alto e Hora, um produtor delicado, com caráter suficiente para não querer aparecer mais que o cliente. Assim, juntando ainda composições de outros fiéis do pagode (Almir Guineto, Arlindo Cruz & Sombrinha), mais a participação da cantora Beth Carvalho na matadora faixa ‘‘Ainda É Tempo pra Ser Feliz’’, o resultado é muito acima da média.
Zeca já havia abandonado explicitamente a malandragem no disco anterior, e este segue sendo ‘‘babacão’’, para usar um qualificativo que emprega a si próprio. Quando fala da ‘‘comadre Mary Lu’’, não é essa rima que você está pensando, mas uma para tabelar com ‘‘Zona Sul’’ e ‘‘Nova Iguaçu’’. (E tome solo de clarinete e trombone por trás).
Talvez por contar com Aldir Blanc numa das faixas, Zeca lembra bastante João Nogueira por certos momentos. Mas é passageiro. Zeca conquistou - e nem foi assim com muito esforço, porque afinal ele não trabalha no metrô - um lugar muito digno no samba brasileiro. Não é pouco.(P.V.)

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