Um jogo dramático e decepcionante
Surge o primeiro produto hollywoodiano na vertente aberta por O Show de Truman - O Show da Vida. Vidas em Jogo, de David Fincher, não trata de televisão, mas é claramente inspirado no longa de Peter Weir. Se no outro filme um homem vive a vida diante das câmeras de TV, aqui outro homem tem a sua vida transformada num jogo do qual participam todas as pessoas a sua volta. De novo a vida é substituída pelo seu reverso, a representação.
É um filme um tanto decepcionante, que edulcora suas possibilidades dramáticas, mas não deixa de ser curioso. A decepção corre por conta do fato de que do diretor Fincher se podia esperar muito mais. Fincher foi o homem que fez Seven - Os Sete Crimes Capitais, um dos filmes mais assustadores dos anos 90, com seu mergulho profundo no mundo das mentes enfermas. James Spacey criava nele um personagem de meter medo no próprio Hannibal Lecter (Anthony Hopkins) de O Silêncio dos Inocentes. Vidas em Jogo prossegue com preocupações que já estavam em Seven.
Quando o filme começa, o personagem de Michael Douglas revela-se como um executivo bem-sucedido. Duas ou três cenas traçam o retrato de um homem rico e poderoso, mas não necessariamente bem resolvido. Ele se ressente de um trauma de infância - o suicídio do pai. Douglas encontra o irmão durante um almoço. O irmão (Sean Penn) lhe entrega o cartão de uma misteriosa empresa que organiza o jogo. A vida do protagonista nunca mais será a mesma. Ele passa a ser manipulado a um grau verdadeiramente insano. No processo, encontra uma mulher de comportamento ambivalente - interpretada pela mesma Deborah Unger que revelou uma sensualidade mórbida e infernal em Crash, de David Cronenberg.
Nada é o que parece ser em Vidas em Jogo e o tema embutido no filme é este - o risco de se viver num mundo cada vez mais globalizado e regido pelo grande capital anônimo, o lado escuro que o homem necessariamente precisa enfrentar. Douglas precisa ir ao fundo do poço, perder tudo o que tem (e o que é) para repensar sua vida e não ser aquilo que o irmão chama de babaca. Não por acaso, ele emerge do túmulo, num cemitério, renascido como um novo homem e capacitado até para o amor (embora, quando isto aconteça, ele ainda tenha uma derradeira prova com que defrontar-se).
É um tema forte, o do homem alienado, que se recusa a ser manipulado e reage, mas o tratamento privilegia mais a ação do que o subtexto. O que importa é sempre o próximo truque do roteiro, levando ao desfecho imprevisível. Neste sentido, o filme decepciona e dilui o que poderiam ser indagações consistentes sobre a angústia do homem contemporâneo.
Vidas em Jogo estreou esta semana no Brasil e está em cartaz em Londrina e Curitiba (ver programação na página 6).Filme de David Fincher, que estreou esta semana no Brasil, não chega a ser uma obra-prima do diretor de Seven - os Sete Pecados Capitais
DivulgaçãoCena de Vidas em Jogo: filme mostra o risco de se viver num mundo globalizado e regido pelo grande capital anônimoLuiz Carlos Merten
Agência Estado





