Um jogo de mil e uma palavras
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 14 de abril de 2008
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Sexo antes e um teste de palavras cruzadas depois. Pode parecer piada, mas para alguns maníacos pelo passatempo, essa ordem deve ser seguida à risca sob o prejuízo da cama ficar vazia ao ser derrotada pelo desejo incontrolável de terminar o jogo. Aos que não resistem à sedução do passatempo, uma boa notícia: o pesquisador australiano, Perry Bartlett, professor do Instituto do Cérebro da Universidade de Queensland, afirma que as duas práticas só se comparam à uma boa corrida para a saúde mental.
A maioria dos adeptos do passatempo concorda que não existe hora nem local para deitar e rolar com uma revistinha de palavras cruzadas - uma mania que, no Brasil, movimenta R$ 35 milhões. O país é o quarto maior mercado de palavras cruzadas do mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos (EUA), França e Itália.
Um mercado que há 60 anos, é dominado em 90% pelas revistas Coquetel, da Ediouro, despertando a curiosidade dos aficionados em saber quem são os caras que elaboram os jogos. Se o jornalista americano Arthur Wynne, do ''The New York Word'', foi o inventor do passatempo, em 1913, os brasileiros aprimoraram a idéia.
''Nos EUA, na Alemanha ou na Itália, os leitores têm que se adaptar às revistas. Nós fazemos tudo em cima de pesquisa e, por isso, as palavras cruzadas brasileiras conseguiram uma qualidade maior, com enorme quantidade de títulos para nichos diferentes'', afirma Henrique Barros, diretor editorial das revistas Coquetel e Ediouro, ressaltando que hoje os apreciadores encontram exemplares com temas bíblicos e para estudantes de Inglês.
A mania que chegou no Brasil em 1925, em edição do jornal carioca ''A Noite'' - e que já nos tempos de Tutankamon, o rei-menino egípcio, era um passatempo mais divertido do que uma rave às margens do Nilo - precisa de um exército faraônico de colaboradores para divertir os adeptos do jogo.
''Contamos com colaboradores nos vários ramos do conhecimento humano. Se aparece uma nova lei, por exemplo, a transformamos em uma questão do passatempo'', comenta Barros, acrescentando que entre esses profissionais estão jornalistas, professores, historiadores, médicos, entre outros.
As palavras cruzadas têm mil e uma utilidades, como prevenir doenças degenerativas, entre as quais o Mal de Alzheimer, e na alfabetização. Na hora de elaborar o passatempo a memória e os conhecimentos pessoais não são suficientes, contando com um banco de dados. ''Ao longo dos anos, desenvolvemos programas de computador que facilitam a elaboração dos jogos'', comenta Barros.
Além dos criadores dos jogos e da equipe de arte, que cuida do layout da revista, - o que a torna mais atraente - uma outra arma das publicações é usada para seduzir os aficionados. Para o editor, as palavras cruzadas têm a função social de democratizar a informação, através da capacidade de abordagem de diversos assuntos, mas uma carta escondida na manga dos editores também garante a fidelidade dos amantes do passatempo. ''O aspecto lúdico do jogo. Psicologicamente é importante para os adeptos ganhar. Se não vencer não vai gostar do passatempo'', afirma Barros.
Assim como os chocólatras adorariam trabalhar numa fábrica de chocolate e os viciados em sexo - bem, em um sexshop - os apaixonados por palavras cruzadas também têm o emprego dos sonhos: são os testadores do passatempo, um trabalho que para os maníacos por palavras cruzadas é a maior diversão - um prazer de aficionado, antes ou depois de qualquer outra coisa.


