Denise Fraga reina no território da comédia. Os olhos expressivos e sua gesticulação frenética impressionam já no primeiro encontro. Mas o retrato falado da atriz carioca não se limita a olhos e mãos. Ela firmou seu talento em papéis cômicos, mesmo quando escritos com tintas abertamente trágicas. O talento de Denise Fraga pôde ser conferido ao vivo, semana passada, em Londrina, quando veio divulgar o filme ‘‘Por Trás do Pano’’, em mais uma edição da Sessão Brasil.
A atriz recebeu a equipe da Folha2 para uma conversa sobre genética teatral, o jeito Fraga de ser atriz e o programa televisivo ‘‘Retrato Falado’’, aos domingos, no Fantástico. Na entrevista, ela contou como seus canais estão antenados para a observação do outro. Por um triz não perdeu o avião para Londrina, quando ‘‘viajou’’ na observação de uma personagem no saguão do aeroporto, em São Paulo. Ela vai registrando na memória gestos, entonações, olhares e histórias. E aí, quando precisa, tem guardado um tesouro para utilizar. É nesse repositório que ela consegue superar com boas doses de humor um texto medíocre.
No palco, ela é capaz de fazer a platéia explodir em gargalhadas, mas em questão de minutos faz muito marmanjo sentir um nó na garganta. Seu maior sucesso no teatro foi ‘‘Trair e Coçar é Só Começar’’, de Marcos Caruso. Olímpia, empregada e rainha absoluta no palco, virou um sucesso retumbante, cativando um público que normalmente não aparece no teatro e gente de influência, como Silvio Santos.
A Olímpia de Denise recebeu traços fortes do Arlecchino (personagem fanfarrão da comédia dell’arte), encantou platéias por seis anos, uma longevidade amparada em constante reciclagem. A maternidade a afastou dos palcos desde 1996. Mas o projeto de um musical está em seus planos. ‘‘Sou afinada’’, avisa. Após o nascimento dos filhos, confessa que passou a rezar muito. ‘‘Como mãe, a gente precisa rezar para o anjo da guarda deles.’’
O filme ‘‘Por Trás do Pano’’, detentor de 13 prêmios, entre os quais o de melhor atriz no Grande Prêmio Cinema Brasil, tem como trunfo a empatia imediata dos personagens. Artistas tentando dominar um ofício cujas ferramentas são volúveis e transitórias. Em seu primeiro longa, Luis Villaça, diretor do filme e marido da atriz, não incorreu no risco de carregar na mão com tudo o que aprendeu na televisão e publicidade, fazendo um filme envolvente e divertido. O casal está imerso no projeto do longa ‘‘Amor à Vista’’, uma comédia romântica sobre pessoas de trinta anos divididas entre um amor promissor e uma carreira apaixonante.
No filme ‘‘Por Trás do Pano’’, Denise é Helena, uma atriz nos primeiros passos na carreira que está diante do desafio de enfrentar um personagem sob a direção de um monstro sagrado do teatro (Sérgio). ‘‘Aprendi com a Helena que para enfrentar um personagem não precisa fazer tanta força’’, disse Denise. A seguir os principais trechos da entrevista.
Quantos diretores considerados monstros sagrados, como o Sérgio, você encontrou na vida?
Não encontrei tipos como o Sérgio, e sim, grandes homens que me fizeram aprender teatro. Na verdade, nunca entrei em crise de estréia, como a personagem do filme. Nunca passei pela experiência de briga de bastidores. Minhas experiências sempre foram muito harmônicas.
Na sua profissão, você desmistificou algumas figuras consagradas?
Como atriz, naturalmente, a gente desmistifica. Quando encontrei o Cláudio Marzo, pela primeira vez, não pensava em outra coisa. Quando fui gravar com a Jacira Sampaio, pensei: ‘nossa é a Tia Anastácia’. Desmistificar não é uma coisa negativa. É muito feliz quando você se descobre colega de pessoas que contribuíram para o seu imaginário.
Quem você poderia citar que lhe ensinou muito profissionalmente?
O Rogério Cardoso, que ficou muito conhecido na Escolinha do Professor Raimundo, é maior do que aquilo que acham que é. O diretor Guel Arraes o descobriu numa peça que fizemos juntos ‘‘Esperando Godot’’ (de Samuel Beckett). Ele tem uma disponibilidade de estar em cena e para jogar a bola para o outro incríveis.
Como a Denise reage quando se depara com um novo personagem?
A personagem do filme ‘‘Por trás do Pano’’, a Helena, me lembrou muito o meu início de carreira. O ator iniciante quer dar todas as intenções numa única frase. O legal é justamente o contrário. Aprender, por exemplo, a soltar as mãos. Quando descobri a liberdade profunda de que elas não precisavam estar em lugar nenhum foi fantástico. Acho que as artes devem estar de mãos dadas com a insatisfação. O Sérgio (personagem de Luis Mello) é exemplo de alguém que senta no pudim. A insegurança me move, sempre acho que não posso fazer. No programa ‘‘Retrato Falado’’, do Fantástico, sempre penso como vou fazer a nova personagem. O grande lance de ser ator é ser intérprete.
‘‘Por Trás do Pano’’ fala do processo de criação do artista. O ator precisa ficar num estado emocional alterado para criar?
No teatro, fica mais. Já o cinema quando o diretor grita ‘‘ação’’, é igual ao terceiro sinal. A gente não pode errar, tudo é muito caro. Quando acaba um dia de filmagem, e deu certo, todos aplaudem.
Há um jeito Fraga de ser atriz, como se fala no estilo de Marília Pêra, Fernanda Montenegro e Dercy Gonçalves?
Acho que a Drica Moraes, a Débora Bloch e eu somos filhas de Marília, assim como a Marília se diz filha da Dulcina de Moraes. Encontro certas atitudes que vi em algum trabalho da Marília. Eu tenho uma obsessão corporal em teatro. O teatro faz o alongamento de sua arte. Dificilmente vou fazer algo não cômico na tevê. O legal na arte de representar é colocar a tragédia e a comédia num mesmo gênero, as coisas correm juntas. Na peça ‘‘As Quatro Estações’’, que fiz com o Rogério Cardoso, fazia uns exercícios de levar a platéia do riso ao choro em questões de minutos.
A Olímpia – personagem histórico no teatro brasileiro e na carreira de Denise Fraga – conquistou muito público novo, diferente?
Eu estava certa que estava formando platéia, como jornaleiro, o taxista, o garçom, pessoas que nunca vão ao teatro. Foi com ‘‘Trair e Coçar...’’ que aprendi que no teatro dá para reciclar, porque o público de toda noite é inédito. No teatro, se não cuidar, a gente canta ‘Atirei o Pau no Gato’, vira automação. Conheci muito cedo o verdadeiro teatro popular fazendo a Olímpia. No ‘‘Trair...’’ me senti ‘‘divertidora’’. Percebi que ser ator é ser funcionário na arte de divertir. Fiz Olímpia por seis anos e quando colocava algum desafio, descobria uma dose de realidade.
No quadro do Fantástico, ‘Retrato Falado’, que tipo de histórias chegam até vocês?
Chega de tudo, desde gente mandando currículo até fazendo pedido para ganhar uma geladeira. A gente pede histórias engraçadas, como a de um casal que se conheceu e se casou em 12 horas. Às vezes, a gente fica sem histórias. Já aconteceu de recebermos 500 e-mails e selecionarmos dois. Teve gente que mandou história inventada. Quem tiver histórias interessantes pode mandar para o e-mail: [email protected]. Por carta o endereço é o seguinte: Produção Retrato Falado, Av. Dr. Chucri Zaidan, 46. Vila Cordeiro, São Paulo - SP. CEP: 04583-110.

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