Um jeito blues de escrever
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terça-feira, 09 de junho de 2009
Adriana Ito<br>Reportagem Local 
A história do cara bem que poderia ser tratada como uma daquelas exemplares trajetórias de superação: um filho de agricultores, com apenas o segundo grau completo e que, após meses juntando um dinheiro suado trabalhando das sete da noite às quatro da manhã como carregador, consegue lançar um livro.
Mas isso seria desmerecer demais o talento de Fabiano Alves Paes, 35 anos. Ele não precisa ostentar nada disso para ser reconhecido como um escritor de verdade, assim como hoje ninguém se lembra mais de que Plínio Marcos foi funileiro e não tinha nem o ensino fundamental completo.
Paes lança hoje, às 21h, na Vila Cultural Cemitério de Automóveis, seu mais novo livro, ''Um jeito blues de se ferrar''. Na ocasião, Herman Schimitz e Renato Alves farão uma apresentação de poesia e música e Valquir Fedri será o responsável pela discotecagem. O evento tem entrada livre e quem quiser adquirir a obra vai desembolsar apenas R$ 3,50.
O preço é só esse porque, mesmo vivendo na pindaíba, o cara não escreve livros pra ganhar uma grana extra. Muito pelo contrário: ele ficou conhecido na cidade pelas obras xerocadas que vendia nos bares a R$ 2,50 (o suficiente para fazer uma nova cópia e no máximo uma cervejinha). E, embora desta vez Paes tenha bancado a gráfica e feito uma edição mais caprichada, ao que tudo indica os ''postos de venda'' não devem mudar.
E se você cruzar com o escritor vendendo ''Um jeito blues de se ferrar'' em algum boteco, compre. A história é curta, tem erros de digitação e de português, um monte de palavrões, linguagem coloquial e pouco burilada, e o universo marginal e de periferia retratado não é nem um pouco inédito. Mas é muito bem engenhada, e é fácil identificar dentro daquela escrita apressada uma veia literária pulsando intensamente.
O único problema é que o escritor (ainda) não tem muito saco para ficar ruminando palavras. Seus livros sempre são escritos em uma semana. ''Quando sento pra escrever, já tenho tudo na cabeça, precisando sair. Então, se passa disso, eu rasgo e jogo fora'', revela.
O método de escrita também é um tanto quanto peculiar. Paes cola vários sulfites um no outro, fazendo uma espécie de pergaminho. Ele escreve então a história toda à caneta. E só depois disso senta-se diante de sua Remington para datilografar e fazer uma ou outra correção. No caso específico de ''Um jeito...'', ele espalhou sobre uma mesa todas as anotações feitas em bares e encaixou tudo feito um quebra-cabeça.
Leitor compulsivo, o escritor foi um daqueles ratos da biblioteca pública, que conhecem todos os atendentes, e reconhecia as editoras pelas siglas impressas na lombada dos livros. ''Se não fosse a biblioteca, eu não seria o que sou hoje'', reconhece, lamentando que hoje em dia não sobra muito tempo pra ler - atualmente ele devora ''apenas'' oito livros por mês.
Embora saiba listar dezenas de autores que aprecia ou já curtiu um dia (entre eles, Ken Parker, o inevitável Bukowski, John Fante, os irmãos Campos e Raymond Chandler), Paes não gosta de bancar o intelectual, nem sai por aí proclamando-se escritor. Ele tem bem clara a idéia de que escreve para ser lido, e não para ser reconhecido. Mas escrever, para Paes, é principalmente uma válvula de escape, quase uma resposta do organismo. ''Eu trabalho em transportadora, chego em casa totalmente quebrado, começo a socar a minha Remington e a emoção jorra'', relata, justificando por que sua escrita é compulsiva: ''A literatura é o que me mantém vivo'', define.


