Um jeito alegre de chover
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 15 de maio de 2000
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha2 
Criatividade e simplicidade sempre foram instrumentos confiáveis para um bom espetáculo. Utilizados juntos, com um boa dose de despretensão, são capazes de surpreender os sentidos como um inesperada chuva de verão.
Este é o caso de Truveja Pra Nóis Chorá, espetáculo apresentado pela Verve Companhia de Dança no final de semana dentro da programação do Filo 2000. Unindo dança e teatro o trabalho da companhia paranaense apresenta uma visão humorada da vida severina, do universo do sertanejo, sem cair nas garras do piegas.
A companhia Verve utiliza linguagens de múltiplas vertentes da dança contemporânea para representar um ambiente folclórico de raiz. O que seria aparentemente uma contradição, torna-se num desafio estético. No caso de Truveja Pra Nóis Chorá, a solução encontrada se revela claramente adequada através do uso da simplicidade. Ao instaurar a quebra de movimentos sem a queda da harmonia, sugere o rompimento da velocidade naturalista para a possibilidade de um tempo não linear dentro de uma narrativa teatral.
A montagem da companhia revela uma criatividade livre de amarras. Um desprendimento criativo acompanhado de um energia jovem que as companhias velhas consagradas geralmente não conseguem transpirar. Essa criatividade despretensiosa faz com que Truveja adquira uma certa leveza que caminha para um humor sem ressentimentos. A próprio imagem melancólica do sertanejo é substituída por uma suave alegria.
Seria exagero afirmar que a Verve Companhia de Dança possui uma linguagem própria. Seu trabalho em Truveja apresenta uma série de referências, talvez até mesmo intuitivas, da dança contemporânea com o objetivo de construir uma postura anticlássica. Faz uso de uma colagem de linguagens para buscar uma estética própria ainda em elaboração.
Há uma tendência de se acreditar que o acúmulo de signos/informação/estímulo constroem obras bem elaboradas. Na verdade trata-se de um equívoco, pois a simplicidade continua sendo o veículo mais belo e sincero para as artes. Em alguns casos, o acúmulo de signos pode servir como escudo de dissimulação de uma obra inconsistente.
A montagem de Truveja Pra Nóis Chorá vem lembrar que não devemos apenas esperar que a chuva alimente os vasos das emoções, mas apanhar um simples regador cheio de água e saciar as plantas.


