Ao abordar com sutileza e propriedade o campo da memória - e a capacidade de perdê-la que parece ser cada vez mais inerente a todos nós -, o incensado espetáculo ''O Jardim'', da Cia. Hiato, de São Paulo, consegue mexer fundo nas emoções do espectador. Tendo como pano de fundo o Mal de Alzheimer, a terceira montagem do grupo terá quatro apresentações no Teatro Filo dentro da programação do Filo 2012: hoje e amanhã, às 21 horas, e sábado, às 18 horas e às 21h30.
No cenário, 300 caixas de papelão são deslocadas pelos personagens para a criação de barreiras físicas que dividem o palco em três setores e o público em três grupos. É por estas frestas que os espectadores vislumbram os fragmentos de uma mesma história e constrói a partir destas pistas dispersas a trajetória de uma família.
As narrativas fragmentam-se em três momentos: na década de 30, Thiago e Fernanda compram uma casa, mas estão em processo de separação. No final dos anos 70, as duas filhas levam Thiago para o asilo. Na atualidade, a sua neta, na companhia de uma empregada, vasculha a velha casa, agora vazia.
Com direção e dramaturgia de Leonardo Moreira, que com apenas 29 anos já contempla no currículo premiações do Prêmio Shell, da Associação Paulista dos Críticos de Arte e da Cooperativa Paulista de Teatro, a montagem é resultado de um intenso trabalho em grupo dedicado desde o início da companhia, criada em 2008, ao tema da memória em seus diversos aspectos.
''Desde a nossa primeira montagem, sempre trabalhamos com exercícios biográficos em que os atores são convidados a dividir suas próprias histórias e lembranças. Na primeira montagem, o foco foi mais o autismo; na segunda, as deficiências em geral, e o espetáculo atual é praticamente a resposta, um fechamento dessa caminhada'', avalia Moreira. O elenco é formado por Aline Filócomo, Fernanda Stefanski, Luciana Paes, Maria Amélia Farah, Paula Picarelli e Thiago Amaral, além do ator convidado Edison Simão.
Em um trabalho que também envolveu entrevistas com grupos de idosos tendo como questionamento os registros de memória, direcionados ao que eles gostavam de lembrar, o que gostariam de esquecer e o que gostariam de ter vivido, o grupo elaborou uma dramaturgia que ressalta o quanto as nossas lembranças recebem percepções diferentes no decorrer da vida.
''É como se precisássemos editar a nossa memória para sobreviver; as nossas lembranças vão mudando por questões biológicas e também devido às nossas percepções dos acontecimentos'', afirma o diretor. ''Utilizamos a memória como ferramenta criativa, como um pretexto para falar de outras formas de ver o mundo'', acrescenta.
A pesquisa ainda se embasou na autobiografia do neurologista ganhador do Prêmio Nobel Eric M. Kandel. Outras fontes de inspiração foram as imagens e a narrativa emocional do fotógrafo Philip Toledano e os escritos verídicos de um esquizofrênico. Outro guia nesta trajetória criativa é o trabalho com instituições dedicadas ao tratamento e prevenção do Alzheimer. A montagem ainda pretende conectar o público por meio de uma narrativa múltipla, reinventada pela reapropriação de episódios clássicos da literatura. Um deles é o trecho de ''Em busca do Tempo Perdido'', de Proust, em que a degustação de um simples bolinho, mergulhado em uma xícara de chá, abre as portas para a memória de uma vida inteira.
Sobre o reconhecimento cada vez maior do trabalho - ''O Jardim'' ainda foi condecorado com o Prêmio Governador do Estado de São Paulo 2011, na categoria Teatro -, Moreira não esconde a felicidade: ''É uma grande satisfação, ainda mais pelo fato da nossa pesquisa ter sido muito despretensiosa''. Para o segundo semestre, eles estão preparando a estreia do espetáculo ''Ficção'', que irá abordar o choque entre a realidade e a ficção no fazer teatral.

Serviço:
O Jardim, da Cia. Hiato (São Paulo/SP)
Quando - Hoje e amanhã às 21h, e sábado às 18h e 21h30
Onde - Teatro Filo (R. Cuiabá, 39)
Duração - 1h30min
Classificação etária - 16 anos

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