Um JAPA com pé no SAMBA
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terça-feira, 26 de junho de 2007
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
O coração de Noel Rosa, o filósofo do samba, quando batia no pulmão parecia a batida de um pandeiro, como ele próprio afirmou, em uma música. O fato é que isto pode acontecer com qualquer sambista brasileiro. O descompasso afina a vida não só de quem no nome é Rosa - a flor por excelência mais perfumada do samba - mas também de todos os que são envolvidos pelas batidas de uma música que faz o coração sair pela boca.
A flor da Música Popular Brasileira (MPB), o próprio samba, nasce até num jardim japonês, como é o caso do músico Guilherme Imai Araújo, o Japa, um nipo-brasileiro, que deixou a alma ser espetada pelo espinho dessa rosa e - ferido de paixão - é um dos integrantes da banda Cabeça d'Nego.
A viagem onomatopéica, a música ''Cabeça de Nego'', de João Bosco, que evoca as almas de Clementina de Jesus a Pixinguinha, inspirou o nome da banda em que Guilherme é guitarrista e vocalista, único descendente japonês.
Uma banda com um sotaque forte nos metais, Cabeça d'Nego foi formada em 2005 mas, bem antes disso, Guilherme morou três anos no Japão, entre os 9 e 12 anos de idade. ''Admiro a organização do país. Morava numa cidade, que é bem pequena. Porém, a estrutura do colégio em que estudava era muito boa. Tanto a escola como o governo japonês proporcionavam condições para você fazer o que quisesse. No colégio comecei a me interessar por música. Havia vários instrumentos musicais à disposição dos estudantes. O ensino de flauta doce era obrigatório, mas os alunos podiam experimentar os instrumentos que quisessem. Quando voltei para o Brasil, uma tia me deu um violão e, depois, acabei me formando em Música pela Universidade Estadual de Londrina (UEL)'', lembra Guilherme.
O samba dizem que é ele quem leva a alegria, mas o que todos perguntam ao jovem de 21 anos é de onde tirou esse fascínio pelo gênero. A resposta mais do que na ponta da língua está na cara de Guilherme que, além da descendência japonesa herdada da mãe, uma nissei, batuca embaixo da árvore genealógica do pai, que é negro.
''Todos os meus amigos falam que sou japonês do Paraguai, mas o meu pai exerceu uma influência importante no meu gosto musical. Ele sempre escutou muita música, inclusive samba'', ressalta o músico, que na banda é vocalista e guitarrista. Além da música, o jovem ainda divide a rotina com o trabalho de tradutor do idioma japonês num jornal da colônia nipo-brasileira londrinense.
Rei desse terreiro musical, o samba se desdobra em vários outros ritmos que o Cabeça d'Nego costuma tocar, desde o legado de Ben Jor ao pop, o samba-rock, ao samba-funk do 'Funk Como Le Gusta', que revalorizou a black music no Brasil, a Pedro Luís e A Parede, Trio Mocotó e Tim Maia. ''É essa mistura do Brasil que proporciona essa variedade musical. Não tenho uma visão tradicional, separando os gêneros, mas acho que cada estilo tem o seu lugar na música brasileira'', afirma.
Só para lembrar Noel, Guilherme é a prova de que, quando o coração bate no pulmão, parece a batida de um pandeiro, o que acontece não só com qualquer sambista brasileiro, mas também com os de outras nacionalidades, já que o samba é um dos gêneros musicais mais democráticos do mundo. Com a mesma ginga com que sobe o morro, desce ao asfalto e cruza oceanos.


