Um irmão nas árvores
Arquivo FolhaChimpanzé em evidência: livro aborda de modo sensível as experiências com esse animalPrimeiro disseram que o homem era o único animal político. Até que um belo dia alguém descobriu que ele demonstrava ser muito mais um político animal do que um animal político. Depois disseram que o homem era o único animal que ri. Isso até alguém revelar que o abanar do rabo do cachorro é o maior dos sorrisos. Aí afirmaram que o homem era, sem dúvida, o único animal que possui linguagem.
Tudo indicava que essa era a real diferença entre os seres humanos e os seres animais: a linguagem. Os animais poderiam até se comunicar através de sons e gestos, mas não criavam símbolos. Isso parecia ser inquestionável até um grupo de cientistas, durante a década de 70 e 80, provaram que os chimpanzés conseguem aprender a linguagem humana e usá-la da melhor maneira possível. Foi um susto. O mundo científico ficou de boca aberta.
Os chimpanzés não conseguiam falar, mas podiam utilizar a linguagem dos sinais, a mesmo utilizado pelos surdos-mudos com grande desenvoltura. Um destes cientistas era o norte-americano Roger Fouts, um jovem psicólogo comportamental que entrou por acaso no mundo dos chimpanzés e provou que eles podem aprender e linguagem humana e, o mais revelador, são capazes de transmitir esse aprendizado para seus filhotes.
O relato deste processo no livro de Fouts O Parente Mais Próximo - O que os chimpanzés me ensinaram sobre quem somos que acaba de ser lançado pela Editora Objetiva. Trata-se de um livro emocionante. Narrando passo a passo seu trabalho de 30 anos ensinando chimpanzés a linguagem dos sinais, a ASL (American Sign Language), Fouts atravessa as academias científicas para se tornar um militante contra as crueldades feitas com animais em laboratórios.
Os vários tipos de experiências aplicadas em chimpanzés, e outros animais, descritas pelo psicólogo causam horror. Dentro das silenciosas paredes dos centros de pesquisas, crueldades sangrentas são cometidas contra animais em nome da ciência e do bem-estar da humanidade. As diferenças genéticas entre o homem e o chimpanzé é muito pequena. Comparando o DNA humano e dos chimpanzés, encontramos uma diferença de 1,6%.
Em outras palavras, o DNA humano coincide com o DNA do chimpanzé em 98,4%. Em algum momento do passado, cerca de 6 milhões de anos, ambos partiram de um mesmo ancestral para a evolução que os tornaria diferentes. As semelhanças entre os dois levam cientistas a aplicarem nos chimpanzés experimentos destinados aos humanos.
Xeque-mate - Roger Fouts iniciou suas pesquisas com a chimpanzé Washoe, criada desde o nascimento dentro de uma família humana que se comunicavam apenas com a linguagem dos sinais. Em poucos anos Washoe aprendeu centenas de sinais formando frases complexas. A etapa seguinte do projeto foi observar se Washoe ensinaria seu filho a linguagem que aprendeu comunicar e se ele aprenderia.
Depois de algum tempo estava provado que o filhote, Loulis, já dominava a linguagem dos sinais e conversava com a mãe. Foi o primeiro ser não-humano a aprender uma linguagem humana de outro ser não-humano. Fouts também aplicou suas pesquisas no tratamento de crianças autistas. O resultado foi imediato. Crianças que não dominavam a fala, depois de aprenderem a linguagem dos sinais, começaram a falar.
Descobriu-se então um vínculo entre o movimento das mão com a movimentação da língua - isso ilustrava porque algumas pessoas quando realizam trabalhos manuais fazem movimentos com a boca e língua. No sentido darwiniano, nosso ancestrais se comunicavam inicialmente com as mãos e evoluiram para a linguagem das palavras.
As conclusões do trabalho de Roger Fouts entraram em choque com a filosofia de René Descartes e, principalmente, com duas fortes correntes acadêmicas: as teorias behavioristas do psicólogo B. F. Skinner e com as teorias linguísticas de Noam Chomsky. Um chimpanzé havia colocado em xeque-mate parte do pensamento ocidental contemporâneo. Nada mal para um animal irracional.
O Parente Mais Próximo não é uma obra cientificamente metódica, pelo contrário, é um relato sensível - humanizado até a medula - da prepotência do homem em se sentir o melhor ser do mundo. Abortando biologia, linguística, psicologia e as teorias de Charles Darwin, Fouts faz de seu relato um ensinamento para a superação egocêntrica que corrói a visão do ser humano em enxergar as formas de vida a sua volta.





