"Um irmão falando com o outro"
Em entrevista à FOLHA, por e-mail, o escritor e jornalista Luiz Taques conta como foi o processo de criação de seu novo título "Pedro" e discorre sobre as suas duas profissões.
"Pedro" é seu quinto livro em prosa de ficção os anteriores foram coletâneas de contos. Ele nasceu já como um romance ou teve como base uma narrativa curta?
Até agora, considerava-me apenas contista. E, então, comecei a escrever "Pedro" pensando no livro como um conto. Só que fui percebendo que "Pedro" era um conto que não acabava nunca, não tinha fim com três, quatro, cinco páginas escritas. Cheguei a acreditar que fosse um conto longo, uma história colada numa outra, feito um beijo com amor, duradouro, ou, talvez, parecido com uma desilusão elástica, porque certas desilusões invariavelmente são esticadas, e algumas desilusões até grudam na pele da gente. Ao finalizar "Pedro", vi, na verdade, que tinha escrito um romance, não um conto. Ou seja, um capítulo foi complementando o capítulo seguinte, compondo a história. Assim nasceu o livro, que não tem 100 páginas. O original devia ter o dobro disso. Fui lendo e cortando, lendo e cortando, e o livro chegou ao número de páginas que tinha de chegar. Não me preocupo com quantidade de páginas. Uma história bem contada não precisa ter mil páginas. "O Velho e o Mar", de Hemingway, não deve ter 100 páginas e é um dos romances mais extraordinários que conheço.
Os primeiros esboços da narrativa já surgiram em forma de escrita contínua, com frases sem ponto final? A ideia é representar o fluxo do rio, referência central do romance?
Escrever "Pedro" apenas com ponto ao final dos parágrafos foi uma decisão que tomei logo que comecei a elaborar o livro. Escrevi as primeiras páginas e lia para mim mesmo em voz alta e notei que ficava legal, tinha ritmo. Pensei: fica bom assim, parece mesmo um irmão falando com outro irmão. E o livro é isso: um irmão falando com o outro. Ah, como seria bom para a humanidade se todo irmão falasse com o outro irmão. Falasse assim, francamente, como acontece no livro. O que o Brasil precisa é investir em educação todo o restante, vem na sequência.
O desmoronamento da família do narrador e a degradação do rio que acompanha seu lamento, seriam microcosmos do Brasil?
Vivemos num mundo onde as relações sociais estão degradadas. As pessoas não se falam, as famílias não se reúnem para discutir os problemas. Pedro e o rio que banha Buraco Quente fazem parte de tudo isso.
Você trocou o jornalismo pela literatura?
Não. Continuo repórter. No ano passado, eu e o meu amigo José Maschio lançamos o livro-reportagem "Crônica de uma grande farsa". Aliás, outras grandes reportagens, que transformaremos em livro, virão por aí. Se não temos mais espaço na imprensa tradicional, então, nada melhor que publicar nossos trabalhos em forma de livros.
Sua trajetória como repórter foi marcada por reportagens investigativas - uma delas, sobre escravidão em carvoarias, rendeu-lhe o Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Como vê o jornalismo feito hoje no País? Há espaço para reportagens de fôlego numa era em que a absorção ligeira de informações on line parece condicionar os leitores?
A grande reportagem sempre terá espaço nos veículos de comunicação. Acho que o que está faltando hoje é repórter querer ser repórter, brigar para ganhar bem e, assim, trabalhar apenas em um veículo. Atualmente, para sobreviver, o jornalista tem dois ou três empregos. Dificilmente ele será um bom profissional atuando em dois ou três empregos. Poucos jornalistas frequentam sindicato; uma minoria vai a assembleia lutar por piso salarial decente, por exemplo.





