Um intelectual na vida de Marilyn
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de fevereiro de 2005
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Marilyn Monroe já era uma estrela com tudo a que tinha e não tinha direito plumas, paetês, jóias, peles, fama, mimos, depressões e adições químicas diversas quando aterrissou com turbulência na vida de Arthur Miller. A atriz buscava estabilidade, apoio emocional, o refúgio que não tinha encontrado em outras relações, no trabalho e principalmente em si mesma. E também um status intelectual que ninguém lhe oferecia.
Os dois se conheceram no Actor's Studio e, em 1956, se casaram era a terceira união dela. Já então Miller era considerado um dos maiores dramaturgos do século 20, e seu nome tinha se popularizado com ''As Feiticeiras de Salém'', peça em que denunciava as perseguições do Congresso dos Estados Unidos aos ativistas de esquerda, ele inclusive, um dos investigados e perseguidos pelo Comitê de Atividades Antiamericanas. Afirmam os críticos que a personagem Abigail era baseada na personalidade de Marilyn.
Durante uma longa temporada os dois viveram distantes da luz dos refletores, mas a atriz passava por uma das piores crises emocionais das muitas que teve em sua curta existência. A estabilidade da relação, se chegou mesmo a existir um dia, sofreu forte abalo com o romance que a atriz manteve mais ou menos abertamente com o ator Yves Montand, com quem trabalhou em ''Adorável Pecadora'', em 1960. Miller a perdoou, mas o casamento fazia água por todos os lados, e carreira da atriz não ia nada bem o consumo de álcool e tranquilizantes eram pesada rotina. Miller decidiu então escrever para ela o roteiro de ''Os Desajustados'', na verdade um irônico canto de cisne no cinema não apenas dela, mas também de Clark Gable, companheiro de elenco. O terceiro ''desajustado'' da trama era interpretado por, imaginem só, Montgomery Clift...
O divórcio de Marilyn e Miller, em 1961, coincidiu com o período mais obscuro da atriz, resultando em sua não menos obscura morte em 1962. Miller refez sua vida e voltou a casar, agora com a fotógrafa Inge Morath, com quem viveu mais de quarenta anos. Mas quando esteve na Espanha em 2002, em resposta a um jornalista que lhe perguntou sobre Marilyn, o dramaturgo evitou esticar o assunto e resumiu: ''Ainda dói...''


