Um inglês cheio de graça
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de agosto de 2001
Marcelo Pen<BR>Agência Folha 
Martin Amis é talvez o autor inglês mais apreciado nos EUA. Desde seu primeiro romance, ''The Rachel Papers'', passando pelo adiantamento milionário que recebeu por ''A Informação'', vem amealhando fãs ilustres por lá, como Philip Roth, John Updike e Saul Bellow.
No Brasil chega seu último volume de ficções curtas, ''Água Pesada e Outros Contos'',em que pode-se detectar algumas afinidades superficiais: a localidade estadunidense de alguns contos e a dicção mais direta, seca, cotidiana. Mas podemos ponderar se não é seu lado britânico o que mais agrada aos americanos: uma certa fúria, o politicamente incorreto, o niilismo e a veia satírica.
A sátira está presente, em menor ou maior grau, em todos os contos. Em poucos, os mais fracos, representa sua única ''raison d'être''. ''Ascensão Profissional'', por exemplo, baseia-se numa inversão de valores. Que tal um mundo em que os poemas são negociados por multinacionais do entretenimento e os roteiros de cinema, publicados em revistas obscuras? Ou então um mundo onde os homossexuais são a maioria.
São histórias engraçadas, quase clássicas em sua perseguição obstinada do tema único, da situação desenvolvida até as últimas consequências. Como é o caso de ''Quero Calcular Quantas Vezes'', na qual o herói, obcecado pela contabilidade de suas proezas sexuais, acaba se deixando levar por um onanismo alucinatório.
Na categoria mais adensada estão ''A Coincidência das Artes'' (apesar de seu clímax um tanto óbvio), ''O Estado da Inglaterra'', ''Morte de Denton'', ''O que Aconteceu Comigo nas Férias'' e ''Água Pesada''. Este último trata de uma viagem de cruzeiro de uma senhora idosa e seu filho abobado, de cujos olhos lágrimas brotam sem parar. Na derradeira parada, em Portugal, a mãe se deslumbra com o aquário municipal. Em sua imaginação, os peixes, anêmonas e enguias se confundem com as figuras do navio. É como se ela visse na mesma perspectiva úmida de seu filho, que, nesse momento, acaricia o dorso de uma tartaruga. O contato com o réptil deflagrará uma débil tentativa de suicídio.
A sátira costuma ser comparada a um instrumento cortante. Mas também pode ser vista como o sol de verão, que inunda a cena com sua luz inclemente, cobrindo-a de arestas e deixando tudo vergonhosamente à mostra. São nesses momentos, quando o retrato patético e cruel do ser humano se une a um espectro amplo de significados e ressonâncias, que Amis revela sua melhor forma. Capaz de ferir e mostrar, com clareza solar, onde dói.
q''Água Pesada e Outros Contos'', de Martin Amis. Tradução de Rubens Figueiredo. Editora Companhia das Letras, 262 páginas, R$ 31,00.


