UM INCENDIÁRIO DA CULTURA
Nelson Sato
De Londrina
Ele chegou um ano depois da Semana de 22. Mas quem o conheceu, garante que Flávio de Carvalho aprontaria das suas caso concluísse antecipadamente o curso de Engenharia na Inglaterra para retornar ao Brasil a tempo de participar do ruidoso auê modernista.
Neste dia 10, quando se comemora o centenário de seu nascimento, dá até para especular se sua múltipla obra não teria obtido um maior reconhecimento com a presença de seu criador ao lado de Oswald de Andrade, Mário de Andrade e toda a turma de intrépidos vanguardistas naqueles dias agitados do Teatro Municipal de São Paulo.
O fato é que, de volta ao País depois de anos de estudos no exterior, não demorou muito para Flávio acionar seu arsenal de provocações - a começar por um polêmico projeto arquitetônico apresentado num concurso público para abrigar a sede do Governo do Estado. Pela proposta, o prédio se transformava numa fortaleza bélica com locais para canhões e até descidas de helicópteros.
O projeto foi recusado, mas virou notícia nos jornais inaugurando uma trajetória repleta de controvérsias. Pode-se dizer que até hoje Flávio de Carvalho permanece uma incógnita para boa parte da crítica, incapaz de avaliar sua atuação polivalente como artista e intelectual. Figura excêntrica, deixou uma vasta e dispersa contribuição em áreas como arquitetura, urbanismo, artes plásticas, cenografia, animação cultural, jornalismo, antropologia e até em empreendimentos empresariais.
Nem quando morreu de derrame cerebral, em 1973, seu legado recebeu a devida análise. Por sua ousadia pioneira, é considerado nosso primeiro artista performático cujo currículo ostenta pelo menos duas exemplares manifestações de rua. É famosa sua caminhada pelo centro da capital paulista, em 1956, trajando uma saia com pregas, blusa de náilon vermelha, meias de bailarina e sandálias de couro cru. Dizia, na ocasião, que era o vestuário adequado para o clima dos trópicos.
Antes, em 1931, quase foi linchado durante uma procissão de Corpus Christi depois de desfilar de chapéu e em sentido contrário ao dos fiéis. Colocava em prática sua militância contra a religião católica e a moral cristã, transformadas já em seus objetos de crítica. Atiçou tanto os passantes que foi obrigado a correr da turba enfurecida, sendo salvo por um policial que o levou para prestar depoimento na delegacia.
Mais tarde, já incursionando pelos pincéis e tintas, lançou a semente da Bienal de Arte de São Paulo reunindo num mesmo espaço os trabalhos brasileiros e internacionais mais expressivos em pintura, escultura, desenho e gravura. Começa a despontar seu talento como retratista. Pinta personalidades como a atriz Cacilda Becker, o físico Mario Schemberg, a condessa Inge Beaussacq e os escritores Jorge Amado, José Lins do Rego e Mário de Andrade.
Atuando no movimento antropofágico, liderado por Oswald de Andrade, é eleito presidente do Clube dos Artistas Modernos (CAM), criado para combater o oficialismo da época. Simultaneamente funda o Teatro da Experiência e encena a peça O Bailado do Deus Morto. É difícil dizer qual é a mais louca: a peça em si ou a história de sua encenação, anotou Antonio Carlos Robert Moraes na biografia de Flávio de Carvalho publicada pela Brasiliense.
A peça foi censurada, interrompida pela polícia no terceiro dia de apresentação com 200 homens armados apavorando a platéia. Flávio é acusado de comunista. A questão chega a ser discutida na Câmara dos Deputados. Os intelectuais se mobilizam posicionando-se a favor do espevitado autor. Sempre provocando celeumas, criou mal-estar também entre seus familiares.
Em sua Fazenda, na cidade de Valinhos (interior de São Paulo), costumava promover orgias hasteando uma bandeira todas as vezes em que sua cama recebia excesso de convidadas. Certa vez, no dia do aniversário de seu pai, trouxe de presente uma maquete para o túmulo paterno com a inscrição Último Abraço!.
Não foi menor o escândalo quando decidiu mostrar publicamente a Série Trágica, um conjunto de desenhos a carvão no qual retratava os dias de agonia de sua mãe (vítima de câncer) no leito de morte. A série completa, aliás, é um dos principais destaques - enquanto realização estética - da exposição que entrou em cartaz semana passada no Rio de Janeiro em comemoração ao centenário de Flávio de Carvalho. A mostra está instalada no Centro Cultural Banco do Brasil e será exibida em outubro na FAAP, em São Paulo.Hoje comemora-se o centenário de nascimento de Flávio de Carvalho, inclassificável artista que fez de tudo um pouco
ReproduçãoFlávio de Carvalho: artista e pensador polivalente tinha vocação para a polêmicaReproduçãoFlávio de Carvalho experimenta a saia ao lado da atriz Maria Della Costa e da costureira Maria FerraraReproduçãoFlávio de Carvalho retratou a agonia da mãe no seu leito de morte: obra em exposição nas comemorações do centenário do artista





