Um homem encantado com a própria vida

Biografia
escrita pela
historiadora
Mônica Velloso
retrata a vida
de Mario Lago
Carlos Bozzo Junior

Arquivo FolhaMário Lago:
‘‘Lendo o livro,
fiquei
encantado
com minha vida’’
Agência Folha

O livro da historiadora Mônica Velloso, ‘‘Mário Lago - Boemia e Política’’, relata, pela trajetória do ator, escritor, cantor, compositor, boêmio e marxista autônomo, alguns compassos que compõem a sinfonia da história carioca. No livro, a vida desse carioca, autor do samba, ‘‘Ai, que Saudades da Amélia’’, em parceria com Ataulfo Alves, caminha junto à história da mídia e recupera, também, parte dos 50 anos de militância política no Partido Comunista Brasileiro. A obra, dividida em capítulos que compreendem a infância e a adolescência, os programas de auditório na Rádio Nacional, o homem de televisão e as composições, foi comentada pelo protagonista.
Qual sua opinião sobre o livro?
Mário Lago - Lendo o livro, fiquei encantado com minha vida. A escritora é dessas pesquisadoras compulsivas. Na primeira vez em que nos encontramos, ela mostrou-me uma fotografia da apoteose do primeiro ato da primeira revista, que escrevi para o teatro Recreio, em 1933. Ela é uma arqueóloga. É um trabalho muito sério, principalmente porque ela não se detém apenas à pessoa que está sendo biografada, mas aos costumes que existiam na época.
O senhor tem...
Mário Lago - O senhor? Desculpe, o senhor atrapalha (rindo).
Você acha que alguma coisa deixou de ser abordada?
Mário Lago - Quem viveu como eu vivi, evidentemente deixa escapar alguma coisa. Não me lembro de tudo. Ela, por exemplo, nem pensou em examinar o problema amoroso, mesmo porque eu não abriria. Privacidade, eu não abro.
Você excluiria algo?
Mário Lago - Não, eu não me arrependo de nada do que fiz.
Em algum momento de sua vida, você pensou que existiria um livro sobre sua biografia?
Mário Lago - Não. Foi uma conspiração da Mônica com meus filhos, e, no começo, resisti um pouco. Achava que não tinha uma vida que merecesse ser biografada. Mas, quando a mulher veio aqui em casa com papéis, como uma entrevista que dei em 42, além de fotos minhas antigas, percebi que era uma pessoa séria.
Você ainda luta por causas populares e ideais socialistas?
Mário Lago - Continuo marxista autônomo, sem filiação partidária.
Qual sua opinião sobre a atual militância no País?
Mário Lago - Eu vejo com tristeza que a esquerda continua com o mesmo vício de rachar. Está faltando humildade política para essas forças de esquerda sentarem em torno de uma mesa e discutirem um programa. É cada um chutando pra um gol.
Você ainda compõe?
Mário Lago - Componho. Tenho mais de 20 músicas, inclusive um samba que fiz com meu filho, mas agora a coisa mudou muito. A relação do cantor com o compositor é muito diferente. Existe um negócio de produtor que se mete no meio. Nunca gastei dinheiro por causa de música. Sempre fui gigolô de música.

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