UM HOMEM E SEUS SIGNOS
Marcos Losnak
De Londrina
Especial para a Folha2
Os sonhos só ocorrem quando estamos dormindo, e dormir significa fechar os olhos, penetrar na escuridão. Ou seja, os sonhos só ocorrem na escuridão, longe das luzes, no negro interior dos olhos da mente.
A partir disso uma questão pode ser formulada: um pessoa cega, privada de luzes e imagens, vive mais próxima do universo onírico do que um pessoa não cega? Levando-se em conta que o ambiente, no caso a escuridão, interfere na vida daqueles que o habitam, a resposta é sim. Levando em conta que a coisa não é tão simples assim, e que a personalidade das pessoas também interfere no ambiente, a resposta pode ser não.
Mesmo assim a reflexão pode sugerir uma tese: os homens cegos, aqueles privados do sentido da visão, estariam mais próximos do mundo dos sonhos. Essa tese anticientífica e quase lunática encontra diálogo com a vida e obra de Jorge Luis Borges (1899 - 1986). O escritor argentino considerava os sonhos como a atividade estética mais antiga do mundo. O passado, para ele, era uma série de sonhos e não conseguia ver diferença entre recordar o passado e recordar os sonhos. Desde a juventude sabia que um dia poderia ficar cego devido a uma doença hereditária. Erudito homem das letras, foi perdendo lentamente a visão. A cegueira total o alcançou em 1956, aos 57 anos de idade. Borges via os sonhos como labirintos, um de seus obsessivos temas, já que todos os indivíduos podem apenas falar da memória que têm dos sonhos, nunca dos sonhos em si. Nesse terreno ergueu sua literatura.
Qualquer crítico, em sã consciência, ao elaborar a lista dos escritores mais importantes do século 20, jamais deixaria de mencionar o nome de Jorge Luis Borges. O singular estilo de sua obra (poesia, contos e ensaios) deu origem ao termo borgiano, assim como a obra de Franz Kafka (1883 - 1934) deu origem ao termo kafkiano. Borges construiu sua obra utilizando a literatura como protagonista, como o grande tema. O combustível que alimentava seus escritos não era prioritariamente a vida, mas a literatura universal. Considerado um gênio, viveu como uma espécie de mito, converteu a si mesmo num símbolo da própria obra.
Jorge Luis Borges conferia igual valor em ler e escrever um livro. De certo modo, conferia mais importância ao ato de ler do que escrever uma obra. Considerava a leitura como um forma de felicidade. Partindo do idéia de Ralph Emerson (1803 - 1882) de que um livro quando fechado é uma coisa entre coisas e quando o leitor o abre acontece um verdadeiro fato estético - fato estético que pode não ser o mesmo fato que o autor concebeu - Borges declarava que cada leitor é um criador, um colaborador, do texto. Considerava que os textos literários são diferentes, não pelo modo como são escritos, mas pelo modo como são lidos.
Após perder a visão, afirmava que sua identidade pessoal era a memória: Eu tendo a esquecer minhas circunstâncias. Desde logo, ignoro minhas datas e me recordo, em compensação, de versos e parágrafos que li. Minhas lembranças mais vívidas não são de coisas que me aconteceram, mas de textos que li. É uma memória singular, uma espécie de antologia.
Jorge Luis Borges nasceu em 24 de agosto de 1899, em Buenos Aires. Sua família era composta por quatro origens, inglesa, portuguesa, uruguaia e argentina. Seus antepassados eram, tanto por parte de pai como de mãe, da elite militar portenha. Desde pequeno aprendeu dois idiomas, inglês e espanhol. Com 15 anos de idade mudou-se com a família para Genebra, Suíça, onde realizou seus estudos. Posteriormente passou a residir na Espanha voltando, em seguida, para a Argentina com 22 anos. Na capital portenha começou a colaborar com várias revistas literárias. Publicou seu primeiro livro em 1923, Fervor de Buenos Aires. Dominando vários idiomas, passou a trabalhar como tradutor e bibliotecário.
Quando Perón assumiu o governo da Argentina, em 1946, Borges foi transferido de seu cargo de bibliotecário para o de fiscal de feira de rua. Antiperonista e anticomunista, o escritor sempre foi considerado um conservador reacionário. Chegou a ser simpatizante dos regimes militares ditatoriais da América Latina. Com a queda de Perón por um golpe militar, em 1955, Borges foi nomeado pelo novo governo como diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires, cargo que ocupou por vinte anos ao longo de sua cegueira.
Na década de 60 já era um literato conhecido e publicado em todo o mundo. Passou a viver viajando por dezenas de países proferindo conferências, recebendo títulos honorários e homenagens. Foi indicado várias vezes para o Nobel de Literatura, prêmio que nunca recebeu.
Borges viveu quase toda sua vida com a mãe, que na cegueira serviu-lhe de guia. Após a morte da mãe, casou-se pela primeira vez, em 1967, com 68 anos de idade, com a viúva Elza Astete Milán. Casamento que durou apenas dois anos. Numa entrevista, indagado sobre o motivo da separação, declarou: Ninguém entende as mulheres, nem mesmo eu.
Nos últimos anos de existência viveu na companhia de sua jovem secretária Maria Kodama, a quem ditava seus textos. Com residência fixa em Genebra, em 1986, aos 85 anos de idade, casou-se (através de uma procuração realizada no Paraguai) com Kodama, deixando todos os direitos de sua obra nas mãos da nova esposa dezenas de anos mais jovem. O fato causou consternação na família e manchetes de jornais. Três meses depois, em 14 de junho de 1986, Borges morria vítima de um câncer no fígado. Segundo notícias veiculadas, morreu tranquilo, sedado. Em seu testamento deixou claro que não desejava ser enterrado na Argentina, mas em Genebra, a cidade de sua juventude. Considerava-se um indivíduo cuja única pátria era a literatura
A visão do sofrimento na velhice foi uma constante na vida de Borges. Assistiu aos avós, o pai e a mãe sofrerem meses e meses antes de morrerem. Em uma entrevista concedida poucos anos antes de sua morte declarou que achava que os médicos deveriam abreviar uma vida fatalmente dolorosa: Eu não acredito que a vida, que comporta esta coisa horrorosa que é a dor física, seja um bem. Aceito este princípio baseado na lembrança de que em minha família a morte sempre foi precedida de agonias intermináveis. Gostaria de deixar este mundo discretamente, em silêncio, e, se possível, sem sofrimento.
Apesar da literatura de Jorge Luis Borges ter ganhado impulso dentro do movimento hispano-americano que passou a ser designado de realismo fantástico nos anos 50, sua obra assumiu um caráter claramente universal. Abandonado o regionalismo de seus primeiros livros, o escritor mergulhou em referências universais e produziu uma obra, repleta de signos, sem precedentes.
Considerava sua trajetória de escritor como uma fatalidade. Escrevia como uma verdadeira necessidade: Quando escrevo, não o faço para ser publicado. Não me dirijo à minoria nem à maioria. Há histórias que desejam ser contadas por mim. Elas me chegam e pedem expressão. Eu me sentiria culpado se não as escrevesse. Mesmo assim, embora adorasse receber homenagens, fazia questão de afirmar que não se considerava um bom escritor: Não sei se sou um bom escritor. Creio que não. Mas sei que sou um bom leitor e, por isso, leio tantos livros. Minha literatura, por assim dizer, sai da literatura. Um homem que se alimentava de livros. Um homem que alimentava e alimenta livros.





