O escritor paulista Luiz Galdino, 60 anos, esteve na semana passada no Norte do Paraná para conversar sobre literatura com os estudantes. Percorreu escolas em Londrina, Apucarana, Cornélio Procópio, Bandeirantes, Uraí e Maringá, a convite da editora FTD, que já publicou vários livros dele. O autor disse que gosta desse contato com os estudantes para estimular a leitura.
Em entrevista à Folha, contou que começou a escrever há 23 anos. Já publicou cerca de 40 títulos, para adultos, jovens e crianças e foi várias vezes premiado. Tem livros traduzidos e publicados no México e Estados Unidos.
Galdino não escreve só ficção. Formado em História, com especialização em Pré-História, ele é um pesquisador de arte rupestre pré-histórica do Brasil, já conviveu com índios e vai publicar, no mês que vem, o livro ''Peabiru: Os Incas no Brasil'', pela editora mineira Estrada Real. Nesse livro, percorre o caminho que os índios faziam do Atlântico ao Pacífico. Boa parte desse caminho - diz - está no Paraná. Leia a entrevista dele à Folha.
Como o senhor começou a escrever literatura infanto-juvenil?
Foi casual. Passei uma temporada com os índios Xavantes, em Areões (MT), numa época em que estava fazendo um levantamento da arte rupestre no Brasil. Minha filha estava, então, com seis anos e passei a contar histórias dos indiozinhos para ela. Como ela gostava, resolvi escrever para crianças essas histórias. Enviei o texto para um concurso e ele ficou entre os dez que formaram uma antologia nacional de contos sobre índios.
Por que um dos temas recorrentes de seus livros infanto-juvenis é a mitologia? (N.R. Ele escreveu as adaptações O destino de Perseu, Os doze trabalhos de Hércules, Os Cavaleiros do Graal, Os Cavaleiros da Távola Redonda)
Meu primeiro contato com a mitologia foi com Monteiro Lobato. As adaptações dele me impressionaram na infância. O mito é tão importante que, na minha opinião, seu estudo deveria ser como é com a história e a geografia. É praticamente impossível traçar o processo de conhecimento humano se não conhecemos mitologia. Tudo o que está escrito hoje um dia foi tradição oral. Para o homem primitivo, que não dominava a escrita, a mitologia tinha a mesma função que a história tem hoje para nós. O homem se perde um pouco sem o mito, que é a origem de tudo. O mito deveria servir de apoio para o homem hoje. O homem mitifica os personagens que repetem o modelo do herói. O Ayrton Senna é um mito por simbolizar o homem vencedor. Os próprios heróis das histórias em quadrinhos repetem os modelos dos heróis míticos, com a força, a inteligência.
A cultura de hoje deixa de lado os mitos?
O jovem hoje vive muito distanciado de alguns valores, se deixa levar por algumas ilusões. Uma sociedade que não tem heróis é uma sociedade sem diretriz. Se uma peça fica em cartaz por um ano, em São Paulo, como Medéia, de Antunes Filho, é porque há público. Por que ver um texto escrito há três mil anos? É um reencontro das pessoas com sua própria raiz, com sua origem, com os valores que sustentam a humanidade. Por que Shakespeare continua sendo mais importante que dramaturgos de hoje? Porque ele traduziu o espírito das tragédias gregas que traduziram os modelos e comportamentos dos mitos. Escrever mitologia para o jovem é uma tentativa de dizer que ele tem uma raiz mais importante, mais séria do que o que ele vê na televisão. Há modelos mais interessantes do que os que ele valoriza. Não se pode pensar a história da arte, das ciências, das religiões, sem a contribuição da mitologia.
O jovem hoje lê pouco?
No Brasil se lê muito pouco. Por isso me empenho nesses encontros, para motivar a leitura. Dizer que o País lê pouco é eufemismo. Aqui não se lê. Num país com 160 milhões de habitantes, a tiragem média de um livro é de dois mil exemplares. Paulo Coelho, Jorge Amado, com milhões de exemplares, são exceções. Em 80% dos títulos lançados todos os anos, a tiragem é de dois mil exemplares, que nem sempre são vendidos. É uma tiragem anedótica e mesmo assim não é lida. Enquanto isso, em Cuba, com 10 milhões de habitantes, a tiragem média dos livros é de 50 mil exemplares. E é um país extremamente pobre. Em Portugal, com 12 milhões de habitantes, os livros têm tiragem média de 20 mil, 30 mil exemplares. Na década de 40, no Brasil, os livros de Monteiro Lobato escritos para adultos tinham tiragem de 6 mil exemplares. Hoje temos o triplo da população com um terço de livros. Os livros para crianças de Monteiro Lobato tinham 50 mil exemplares.
E hoje aumentou o número de escritores. O Brasil tem também bons escritores de livros infantis, não é?
O Brasil tem livros bem feitos, premiados no exterior. O problema é que se perdeu o hábito de ler. O leitor sempre foi formado em casa, pelos pais, avós. Com a saída da mulher para trabalhar e por outras razões, a formação do leitor passou a ser mais uma função da escola, que quase sempre não está preparada para isso. O lugar onde se aprende o saber constituído nem sempre é o melhor lugar para a leitura lúdica, criativa. O processo que culminou com a falta de leitura teve início na década de 60. O jovem que não lê está alijado do processo de leitura há duas, três gerações. Ele vem de uma família que não lê.
Como reverter isso?
O ideal seria a criação de uma nova diretriz de base que privilegiasse a leitura na escola, um programa em que a leitura tivesse o papel que merece. O aluno que lê infalivelmente vai falar bem, escrever bem, aprende automaticamente tudo que é implícito ao ler e escrever. Ninguém se torna escritor porque estudou teoria literária. Na leitura de um Machado de Assis, por exemplo, se apreende essa teoria.
Isso deve começar na infância?
A criança gosta de ouvir história. Até os 10 anos, se interessa, vibra com leitura. Depois, começa a se interessar por outras coisas, mais fáceis, como a TV e internet, que não exigem nada. É uma concorrência desleal. A impressão de que o jovem gosta mais de TV é um engano. Ele gosta mais de TV porque ela não exige nada dele. Já a leitura exige concentração, atividade crítica. E na escola, o aluno sente que a leitura é algo a mais - se fizer mal será punido. Portanto, essa leitura atemoriza. É uma situação grave. Na Itália, na França, não se ensina regra de acento gráfico. Lá, se lê e se discute texto. A ordem é inversa, começa com o principal - o texto - e não com as regras de acentuação, concordância. Quem lê, aprende automaticamente essas regras.
Quais são seus trabalhos mais recentes?
No próximo mês, devem sair mais dois livros meus. Um romance juvenil, ''Amigas para Sempre''. E um sobre pré-história brasileira. Falo do caminho de Peabiru, de antigas trilhas indígenas que ligam o Atlântico ao Pacífico. O livro é ''Peabiru: Os Incas no Brasil''. Nesse livro, defendo a tese de que a população dos Andes tentou se estabelecer por aqui, mas foi expulsa pelos carijós. O caminho que os índicos percorriam saindo de São Vicente, Cananéia (SP), São Francisco do Sul (SC) passava pelo Paraná. Em Pitanga, Ubiratan e Campina da Lagoa ainda há caminhos com características descritas no século XVI. E há monumentos primitivos, pedras com inscrições, machadinhas, máscaras, instrumentos com características incaicas, que comprovam a presença dos grupos andinos por aqui ou o contato com eles. Metade desse caminho está em território paranaense.

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