Um homem do outro lado do charuto
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 13 de agosto de 1998
Marcos Losnak Especial para a Folha 2 
Segundo consta, as últimas palavras de Bertolt Brecht em seu leito de morte foram um sussurrado me deixem em paz. Era 14 de agosto de 1956 e o escritor e dramaturgo alemão deixava o mundo dos homens com uma obra consolidada como uma das mais importantes das artes do século 20.
Tudo começou quando o jovem Bertolt desembarcou na estação ferroviária de Berlim, em 1920, com a cabeça fervilhando de idéias. Com a barba por fazer, vestindo um casaco preto de couro, percorreu todos os cafés e cabarés da noite berlinense conversando e bebendo com trabalhadores, artistas, prostitutas, atores, intelectuais e vagabundos. Nestes ambientes enfumaçados, carregados de risadas e música, expôs suas idéias e escritos para qualquer um que sentasse ao seu lado e não se incomodasse com a fumaça de seu inseparável charuto.
O jovem Brecht vinha de sua cidade natal de Augsburgo, sul da Alemanha, com os bolsos cheios de escritos. Nascido em 10 de fevereiro de 1898, no seio de uma rica família, tinha como objetivo integrar-se à vida artística de Berlim e chocar sua burguesia. A Europa vivia os reflexos de sua Primeira Guerra, os valores humanos estavam sendo reorganizados e o jovem Bertolt soltava sua ferina voz antiburguesa: Cresci como filho de gente abastada. Meus pais me colocaram um colarinho, e me educaram no hábito de ser servido e me ensinaram a dar ordens. Mas quando já crescido, olhei em torno de mim, não me agradaram as pessoas da minha classe, nem dar ordens, nem ser servido. Então deixei a minha classe e me juntei à gente pequena.
Mostrou seus escritos a alguns diretores teatrais, seduziu algumas atrizes, argumentou de maneira inteligente e rapidamente começou a ser um grande expoente do teatro alemão. Hoje, no ano em que se comemora o centenário de seu nascimento, Bertolt Brecht continua sendo o dramaturgo mais encenado em todo o mundo, superado apenas pelo lendário William Shakespeare. Peças como Ópera dos Três Vinténs, Baal, Mãe Coragem e Seus Filhos, Vida e Morte de Eduardo II, Santa Joana dos Matadouros, Círculo de Giz Caucasiano e muitas outras fazem parte deste recorde.
Depois 42 anos de sua morte, seu universo de esquerda revolucionária permanece soterrado pelas ondas da História, mas seu teatro permanece como referência obrigatória. Embora tenha construído uma vasta obra - poesia, crítica teatral, teoria estética, política, etc - foi exatamente do campo da dramaturgia e da encenação teatral que Brecht solidificou sua abordagem revolucionária. Ao contrário do teatro como anestésico burguês carregado de ilusionismo, queria o teatro que despertasse a consciência do espectador, um teatro que o impulsionasse a tomar decisões, a agir. Concebeu o chamado distanciamento cênico, recurso que deveria proporcionar distanciamento crítico tanto da parte do ator como da parte do espectador com relação ao espetáculo. Além de colocar o ator ora distanciando-se e ora retornando ao seu personagem, utilizava uma série de recursos cênicos como canções, slogans, cartazes, música, filmes, etc, como informações autônomas. Estes recursos provocariam um estranhamento e este estranhamento impulsionaria o distanciamento e este distanciamento levaria à reflexão. Brecht desejava um novo tipo de platéia. Uma espectador que levaria para o teatro todo o seu ser pensante. Desperto, um observador e crítico da ação desenrolada no palco.
Recusava a interpretação totalmente baseada na emoção. Para o escritor alemão esta prática, sincera ou exibicionista, visava atingir o universo afetivo do espectador acabando por iludi-lo, e fatalmente cegá-lo. Na realidade não defendia que a emoção devia ser banida do ofício do ator, apenas encarava a emoção como portadora de ideologia e, consequentemente, mistificadora. Sendo mistificadora deveria ser submetida a um rigoroso controle: As emoções possuem sempre um fundamento de classe muito bem determinado; a forma sob a qual elas se manifestam é sempre histórica, quer dizer, específica, limitada, ligada a uma época. As emoções não são, em absoluto, universais nem intemporais.
Lendo os livros de Karl Marx descobriu a base ideológica para seu teatro épico. Passou a incorporar em seus textos as injustiças que o capitalismo espalhava pelo mundo não como coisas naturais, mas como problemas construídos pelo próprio homem. Da mesma forma em que as injustiças eram construídas, erguidas, poderiam ser derrubadas. Poderiam ser derrubadas por dentro, do interior para o exterior através do teatro. Neste período escreve seus textos mais ideológicos, alguns deles visivelmente panfletários.
Em 1933, quando Adolf Hitler derrubou a República de Weimar e assumiu o poder, Bertolt Brecht foi obrigado a deixar a Alemanha fugindo da perseguição nazista. Passou por Viena, Praga, Zurique, Noruega, Dinamarca, Rússia e acabou se refugiando no paraíso do capitalismo, Estados Unidos.
Este exílio termina em 1947, quando Brecht volta para a Alemanha numa situação bem diferente da sua partida, coroado com louros. Recebe o convite para fundar e dirigir a Berliner Ensemble, poderosa companhia teatral financiada pelo Estado.
Contraditório e polêmico, deixou registrado que considerava a gravidez uma doença venérea. Chocar foi uma de suas intenções durante grande parte da vida. Ao mesmo tempo que esbravejava contra o capitalismo, não desprezava nenhum trocado que colocassem em seus bolsos. Palavras suas: Meu nome é uma marca, e quem usa essa marca deve pagar por ela.
Um mês antes de sua morte envolveu-se em mais duas posições polêmicas. Primeiro, dirigiu um apelo ao Parlamento contra a reimplantação do serviço militar obrigatório. Segundo, depois de passar décadas em silêncio em relação aos crimes de Stalin, começou a escrever um longo poema crítico comentando as consequências do stalinismo soviético - em uma parte do texto chama Stalin de meritório assassino do povo. Em seus último dias de vida foi assistido por sua filha Barbara - uma de três doenças venéreas - e, segundo consta, até hoje não foi deixado em paz.


