UM HOMEM DO MUNDO
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 07 de junho de 2000
Jackeline Seglin De Londrina 
As pessoas acham que à medida que envelhecemos, perdemos a memória. Eu estou multiplicando minhas memórias. Quem diz é o consagrado teatrólogo brasileiro Augusto Boal que, aos 69 anos, acaba de publicar sua autobiografia, Hamlet e o Filho do Padeiro Memórias Imaginadas (Record). Ele passou por Londrina nesta semana, depois de 15 anos, para acompanhar a apresentação de sua sambópera Carmen no Festival Internacional (Filo). Com a imprensa, falou sobre o trabalho que marcou a cena teatral em todo o mundo: o Teatro do Oprimido.
Ganhador de prêmios, homenagens e condecorações, este artista apaixonado prefere contar histórias a explicar teorias. E não gosta de falar dele mesmo apesar de sua vida estar diretamente relacionada ao desenvolvimento do Teatro do Oprimido no mundo. Minha editora inglesa perguntou por que não escrevia um livro que fosse uma espécie de biografia. A minha primeira reação foi dizer não. Eu sou ainda muitíssimo jovem, não estou na época ainda de fazer autobiografias, nem mesmo precoce. Deixem eu fazer mais coisas. Para Boal, biografias dão idéia de missão cumprida. Ele ao contrário, a cada novo fim, recomeça. Quero mais. Sou excessivo, demasiado. Seria incômodo falar de mim: no que faço, importa o feito, não o fazedor, escreveu no livro.
Mas a idéia de repartir experiências acabou convencendo Boal. Hoje, o Teatro do Oprimido é feito em 70 países em muitos deles as pessoas não sabem o que é Brasil. Por isso relatar o surgimento desta prática e as formas de teatro Invisível, Jornal e Legislativo. O Teatro do Oprimido é o primeiro sistema do hemisfério sul amplamente praticado no hemisfério norte. Geralmente é ao contrário. Apesar de achar a biografia uma coisa meio de narciso, aceitei. Seria interessante contar cada etapa do processo, lembra.
Boal também conta como foi a vida de seus pais, camponeses de Portugal que se mudaram para o Brasil em 1925 para tentar uma vida nova o pai de Boal é o padeiro do título do livro.
A entrada para o revolucionário Teatro de Arena, o qual dirigiu durante 15 anos, inicia a segunda etapa do relato de Boal. É toda uma parte do teatro brasileiro que tem pouca documentação. Falo do Arena, do grupo com o qual iniciei, com Gianfrancesco Guarnieri, Flávio Migliaccio, Lima Duarte, Paulo José, Dina Sfat, Isabel Ribeiro, Juca de Oliveira, Antonio Fagundes; os autores que a gente lançou o próprio Guarnieri, o Vianna, Benedito Ruy Barbosa, Lauro César Muniz.
A repressão dos anos 60 e 70 também é enfocada pelo dramaturgo. Houve um momento em que a gente ia para o palco com revólver carregado no bolso. Isso era real. A gente fazia teatro com o dedo no gatilho. O exílio do pensador brasileiro marca também a época da gestão do Teatro do Oprimido. Fui banido oficialmente do território oprimido. Fiquei exilado cinco anos na Argentina, dois em Portugal e oito na França. Depois voltei para o Brasil, mas continuo viajando muito. Esse ano fui para a Europa três vezes, duas para os Estados Unidos. Uma vez por mês estou indo para fora. Conto toda essa rede que se armou do Teatro do Oprimido fora do Brasil.


