Um homem do cinema
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sexta-feira, 29 de setembro de 2017
Marian Trigueiros<br>Reportagem Local 

Esbanjando jovialidade em seu macacão jeans, look preferido para as gravações, apenas os cabelos brancos levantam suspeitas sobre a idade do fotógrafo e diretor de cinema Carlos Ebert. Ele é um dos primeiros a chegar no set e checar se está tudo certo com as luzes e cenário. O local em questão é a Vila Cultural Usina Cultural, há duas semanas, onde foram gravadas as últimas cenas da primeira série ficcional para TV totalmente produzida e rodada em Londrina, "Super Família", da Kinopus Audiovisual. Assim que o restante da equipe e do elenco chegam, ele coloca seu chapéu de pescador e acompanha toda a filmagem diante de uma das câmeras. Carioca, mas residente em São Paulo há muitos anos, a vinda do diretor à cidade retoma a parceria de sucesso entre ele e o diretor de cinema Rodrigo Grota.
O primeiro contato entre os dois foi há pouco mais de dez anos, quando Grota iniciava seu primeiro projeto audiovisual de peso, o curta-metragem "Satori Uso", debutante da "Trilogia do Esquecimento". Entusiasmado com o roteiro e as ideias que fervilhavam na cabeça do jovem londrinense (de coração), Ebert não hesitou em aceitar o convite para trabalhar no projeto. "Desde então, a relação se estabeleceu e fortaleceu além da profissional. Houve uma aproximação humana, de vida mesmo", conta ele, que participou dos outros dois curtas na sequência, "Booker Pittman" e "Haruo Ohara". "A democratização do digital está revelando talentos em todos os cantos, e Londrina tem um potencial audiovisual muito grande. A presença de universidades na cidade oferece uma vantagem muito grande de profissionais".
De lá para cá, a vontade do diretor de fotografia em trabalhar em algo maior em Londrina só aumentou. "Estive envolvido em trabalhos grandes que não me permitiam ficar fora de São Paulo por muito tempo. Quando fui convidado para a série "Super Família", primeiro projeto desse porte da produtora, vi que era a hora de colaborar com a equipe". Mudou-se, então, de mala e cuia para a cidade como diz o ditado - onde passou os últimos três meses trabalhando intensamente e "desfrutando a vida cultural com o FIML (Festival Internacional de Música de Londrina) e o FILO (Festival Internacional de Londrina)", como faz questão de lembrar, ressaltando o potencial artístico da cidade de apenas 83 anos, além do céu, no qual, segundo ele, é possível fazer um cromaqui. "Dá para filmar e recortar, de tão azul. O clima aqui é muito bom para fazer cinema".
EXPERIÊNCIA QUE CONTA
Carlos Ebert estudou Arquitetura na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e Cinema na Escola Superior de Cinema São Luiz, em São Paulo. No final dos anos 60, participou do cinema marginal e foi câmera e diretor de fotografia de um dos filmes mais significativos do movimento, "O Bandido da Luz Vermelha", de Rogério Sganzerla. Também dirigiu "República da Traição" e fez a fotografia do "O Rei da Vela", de José Celso Martinez Corrêa e Noilton Nunes. Para a televisão trabalhou em "O Povo Brasileiro", ganhador do Grande Prêmio Cinema Brasil de TV em 2001. Em 2007, fez a direção de fotografia do filme "A Ilha do Terrível Rapaterra" de Ariane Porto e, em 2008, do documentário "Um Homem de Moral" de Ricardo Dias. No currículo, acumula ainda vários comerciais para televisão. Além de ministrar cursos, oficinas e palestras, Ebert também atua como consultor técnico e é Membro Fundador e Moderador da Lista da Associação Brasileira de Cinematografia (ABC).
Com toda a experiência adquirida ao longo de mais de 50 anos de carreira, o diretor, portanto, não poupou esforços para viabilizar e garantir qualidade à execução do roteiro pé vermelho, mesmo com o orçamento considerado pequeno diante de grandes produções. "O conhecimento técnico me possibilitou pensar em várias soluções tecnológicas para serem usadas e conseguir um resultado de igualdade com outras produções, ainda que houvesse essa limitação orçamentária", conta ele, que diz ter pesquisado muito por modelos de lâmpadas, luz para vídeo e para câmeras com valores mais acessíveis. "Gosto de projetos que me desafiam. Gosto de trabalhar com os jovens; eles pedem coisas que nunca havia imaginado".
O desafio técnico, conta, foi superado com muita conversa e alinhamento. "É preciso haver uma integração entre arte, fotografia e som. Se a gente não conversa, podem haver surpresas desnecessárias e desagradáveis. Não adianta sonhar com o que você não tem. Não vou diminuir a criação, mas preciso me adequar à realização do projeto dentro de linha de produção e qualidade. Tudo deve estar claro desde o início para ninguém ficar frustrado. Por isso, é necessário interagir, construir em parceria", pontua o diretor. Interação que fica bem evidente com todos os profissionais, incluindo atores - ao acompanhar uma tarde de gravações da equipe, como fez a reportagem da FOLHA.
UNIVERSO INFANTIL
Avô de três crianças (de 2, 4 e 7 anos de idade), Ebert diz que a vida é feita de ciclos e o trabalho voltado ao público infantil nos últimos anos tem lhe rendido muita satisfação. "Meus netos são meus modelos prediletos, vivo tirando foto deles", gaba-se. Desde a participação no seriado infanto-juvenil "O colorido mundo de Dalton", em 2016, a aproximação tem sido ainda maior. "As crianças pensam 'solto', estão fora da racionalidade e coisas formatadas. Então, para mim, como criador de uma imagem, existe uma liberdade incrível, não há limites nesse sentido. Quando dou uma solução para alguma imagem, ele perguntam o motivo, dão sugestões, falas, e isso é genial. Gostei de criar para o público infanto-juvenil; as crianças são inspiradoras e estimulantes", conta.


