Um homem de palavras
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 17 de julho de 2002
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
O jornalista e escritor Zuenir Ventura chega hoje a Londrina para participar de um bate-papo com a platéia. Ele é o convidado da vez do projeto ''Literatura & Cidadania'', uma iniciativa da Books Livraria que já trouxe à cidade os escritores Carlos Heitor Cony e José Roberto Torero.
A palestra começa às 20 horas no espaço de eventos do Consórcio União. Zuenir, 71 anos, é colunista do jornal O Globo, da revista Época e do site Nominimo. Virou autor best-seller com seu primeiro livro, ''1968 O Ano que não Terminou'', publicado em 1988 e que já está na 38 edição.
A obra serviu de inspiração para a minissérie ''Anos Rebeldes'', produzida pela TV Globo. Em seguida, lançou ''Cidade Partida'', livro-reportagem sobre a violência no Rio de Janeiro. ''O título do livro virou expressão de domínio público, todos passaram a utilizá-la'' contou ele, por telefone, ontem de manhã.
Depois, vieram ''O Rio de Janeiro de J. Carlos'', ''Inveja Mal Secreto'', ''Crônicas de um Fim de Século'' e ''Cultura em Trânsito 70/80 da Repressão à Abertura'' (este em parceria com Elio Gaspari e Heloísa Buarque de Hollanda). Na imprensa, circulou por diversos veículos importantes como Correio da Manhã, revista Fatos & Fotos, O Cruzeiro, Visão, Isto É, Veja e Jornal do Brasil.
Em 1989, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo e o Prêmio Vladimir Herzog pela série de reportagens sobre ''O Acre de Chico Mendes'', publicada no JB. O projeto ''Literatura & Cidadania'' é patrocinado pelo Consórcio União, através da Lei Municipal de Incentivo à Cultura. A seguir a entrevista que Zuenir Ventura concedeu à Folha2
Você talvez seja um dos jornalistas brasileiros mais requisitados para dar palestras. Que temas pretende discutir hoje à noite em Londrina?
Vai ser muito mais uma conversa, uma troca de idéias e experiências do que uma palestra com tema direcionado. Já participei de vários eventos semelhantes pelo país e percebi que nesse tipo de contato o diálogo é mais proveitoso do que o monólogo. Geralmente, numa palestra formal a pessoa nem sempre fala na direção que a audiência gostaria de seguir. Quando o clima é mais de conversa, você dá à platéia o direito de perguntar, o que é bem melhor. Vou abrir o encontro para falar do Brasil, da literatura e da experiência pessoal de um velho jornalista de 71 anos que está vendo a banda passar.
Seu primeiro livro, ''1968 O Ano que não Terminou'', é de 1988. De lá para cá, você intensificou a produção literária publicando outros títulos. Essa atividade influenciou, de alguma maneira, seu texto jornalístico ou vice-versa?
Eu transito nessas duas atividades, entre uma e outra e nas duas ao mesmo tempo. O jornalismo e a literatura não são atividades incompatíveis, são complementares. Eu estudei Letras, e acabei no jornalismo por acaso. Hoje, meus próprios livros trazem uma presença grande do jornalismo. ''Inveja Mal Secreto'', por exemplo, é um livro de ficção. Mas tem toda uma base de apuração jornalística.
Como anda a qualidade do texto na imprensa brasileira? Muita gente diz que o nível caiu, você concorda?
O jornalismo sofre da pressão do tempo e do espaço das páginas. Isso já dificulta bastante o cuidado com o texto, com a forma. O problema é que, no passado, o mundo não exigia tanta velocidade como hoje e permitia uma mistura de literatura e jornalismo. Os grandes escritores trabalhavam nas redações, não só escrevendo crônicas mas fazendo reportagens. Já hoje em dia, com a imprensa cada vez mais industrializada, tudo foi se adaptando à informatização e aos aparelhos técnicos em geral. Esse condicionamento dificultou mais ainda a introdução da dimensão literária no texto. Quem atua no jornalismo de livro, não sente esse problema. Teoricamente, tem tempo e espaço para escrever com mais tranquilidade, podendo esticar o prazo de entrega dos originais.
Os escritores costumam se queixar do excesso de espaço dedicado à televisão nos jornais em contraposição ao reduzido espaço voltado à literatura. Como você vê essa questão?
A produção audiovisual ocupa mais espaço porque é proporcional à demanda do próprio leitor. Não sou dos que acham que acabou o espaço para a literatura, acabou o grande crítico, etc. Os grandes jornais mantêm suplementos literários. A diferença é que o tratamento mudou, o formato é outro. As resenhas substituíram os ensaios reflexivos, que foram para a academia e para as revistas especializadas. E isso não é necessariamente ruim. Existem grandes revistas intelectuais, ensaísticas, com críticas aprofundadas. A realidade da imprensa é industrial, tem restrições. Mesmo assim, com competência, é possível avaliar qualquer produto cultural. E há aí, inclusive, o estímulo à economia de linguagem e à capacidade de síntese.
Há oito anos você publicou o livro-reportagem ''Cidade Partida'', sobre a violência do Rio de Janeiro. Que avaliação você faz hoje da situação? As coisas mudaram para pior, melhor, ou continuaram na mesma?
As condições pioraram. O Rio é um pouco síntese do Brasil. Para o bem ou para o mal. Houve um acirramento da violência nos grandes centros, um agravamento do quadro com um nível de violência maior. Vivemos uma tragédia urbana, uma guerra civil de guerrilha diferente. O narcotráfico é um negócio, que não pode ser combatido com tiro de canhão. Por outro lado, surgiu ao longo dos anos 90 uma tomada de consciência dolorosa de que a sociedade é responsável pelo problema, de que os dramas de diferenças sociais não são problemas para o governo resolver. Antes, virávamos as costas para os morros e favelas. Quando começaram a morrer pessoas vítimas de balas perdidas, descobriu-se que ninguém estava a salvo. Hoje sabemos que não adianta montar bunkers, contratar exércitos particulares ou instalar grades e vidros blindados. Ninguém está imune à violência. Pelo menos, todos já encaram a tragédia de frente, sem omissão.
Serviço
Palestra com o jornalista e escritor Zuenir Ventura. Hoje, às 20 horas, no espaço de eventos do Consórcio União (Av. Higienópolis, 2.400). O evento faz parte do projeto ''Literatura & Cidadania'', da Books Livraria. Os convites para a palestra podem ser retirados gratuitamente na Books Livraria (Rua Espírito Santo, 1.257) e no próprio local do evento.


