Carmo do Rio Claro, cidadezinha mineira encravada entre as montanhas, é abundantemente aquosa. Fica ali, a quase 370 quilômetros de ‘‘Belzonte’’. O último senso registrou pouco mais de 18 mil habitantes. Na deslumbrante Serra da Tormenta, pode-se saltar de asa-delta e paraglider. Mas Carmo não foge à regra, respira religiosidade.
Nos altares das igrejas, os santos testemunham o olhar resignado dos devotos. Os vitrais, varados de luz, espalham suas cores na arquitetura barroca. As procissões religiosas, sedimentam a fé, numa teatralização sacra repetida de geração em geração. Nesse microcosmo de Carmo do Rio Claro, o diretor teatral Gabriel Villela busca inspiração para sua arte teatral. ‘‘Meu teatro é um depoimento sobre minha terra’’, confessa.
Formado em direção teatral pela ECA (Escola de Comunicação e Artes da Universidade Estadual de São Paulo), em 1989. Sua liturgia dramatúrgica retrata, por vezes, imagens demasiadamente contorcidas, dependendo da intensidade do riso e da dor. Já tentou explicar suas cores fortes que leva à cena com a seguinte afirmação: ‘‘meu teatro é barroco de nascença, religioso por doença e metafórico e alegórico por excelência’’.
Gabriel Villela dirigiu ‘‘Romeu e Julieta’’ e ‘‘Rua da Amargura’’, com o Grupo Galpão, de Belo Horizonte. Também constam em seu currículo a direção de ‘‘A Vida É Um Sonho’’, de Calderón De La Barca, protagonizado por Regina Duarte; ‘‘A Falecida’’, de Nelson Rodrigues, com Maria Padilha; ‘‘Mary Stuart’’, com Renata Sorrah e Xuxa Lopes. Recentemente, dirigiu o musical de Milton Nascimento ‘‘Os Tambores de Minas’’. (Os mineiros se protegem).
Em São Paulo, no TBC – Teatro Brasileiro de Comédia – brilha o letreiro ‘‘Replay’’, de Max Miller, também sob sua direção. Villela prepara uma trilogia com musicais que levam a assinatura do mestre Chico Buarque: ‘‘Ópera do Malandro’’, ‘‘Gota D’Água’’ e ‘‘Calabar’’. O TBC foi restaurado graças a iniciativa do empresário Marcos Tidermann, estruturando um complexo de 4 salas de espetáculos, 25 camarins, 2 bares e 22 banheiros. A ginga de ‘‘Ópera do Malandro’’ deve entrar em cartaz em setembro. Em tempos em que pipocam em São Paulo musicais da Broadway, nada melhor do que fazer uma reflexão sobre os musicais brasileiros.
Em Londrina, Villela participou do II Fórum de Cenografia e Fazer Teatral, dentro da programação do Filo 2000, na última quinta e sexta-feira. Homem múltiplo, além de segurar a batuta da direção, coloca sua assinatura na cenografia e figurinos. Após o debate ‘‘Quando o cenógrafo se tornará o diretor’’, ele recebeu a Folha2 para um bate-papo sobre sua carpintaria. Sua devoção pela arte teatral reflete uma religiosidade latente. A seguir, trechos da entrevista com Gabriel Villela.
Seus espetáculos possuem uma característica de serem carregados de simbologias. Existe um método Villela de dirigir e conceber espetáculos?
Não. Estou botando a pique toda tentativa de definição da figura do artista. Mas está muito cedo para concluir qualquer coisa a meu respeito. Essa fartura cênica pode ser comparada a uma catedral barroca. Quando se entra, não se acha de cara o altar-mor. Busca-se o sacrário em que está o Santíssimo Deus, sem repousar o olhar em nenhum lugar. Desde pequeno fui influenciado pela Igreja Católica Apostólica Romana, pelo circo-teatro e pelo imaginário do povo mineiro. Quando se entra numa catedral barroca, sai-se enfastiado, cheio de informações. Mas fica algo por ver. Não sei se teria competência para dirigir teatro realista.
De onde vem esse exagero que você apresenta no Teatro?
Da cultura mineira, uma cultura de exageros, até pela expressão emocional. Minas é terra de contrários fortes, contradições que geram antíteses. Qualquer Jesus Cristo de Aleijadinho derrama sangue pela humanidade. Pelas chagas dos santos de Aleijadinho corre sangue de toda a humanidade. Minas tem influência do jorro e fartura de sangue e água.
Como diretor você não se limita a dirigir a encenação e os atores. Seu trabalho vai além disso. Quando você percebeu esse seu lado de cenógrafo e figurinista?
Veio tudo junto, num mesmo pacote. Atuar nessas áreas demonstra um lado redutor, talvez por insegurança e vaidade. Agora, na montagem da ‘‘Ópera do Malandro’’, de Chico Buarque, convidei o J.C. Serroni para fazer a cenografia, para buscar novas respostas e diretrizes. Se na concepção cenográfica do Serroni ele vai tirando, tirando, eu, por exemplo, vou colocando, colocando. Daí a gente vai chegar numa medida. Nasci para o risco, procuro a ribanceira. Gosto de trabalhos na zona de risco e não na área de segurança.
Qual espaço o ator possui em suas montagens? O que você busca no ator, afinal?
Busco no ator a parceria da realização e operacionalização do feito teatral. Dirigir ator é seduzi-lo para uma conversa na alcova. É uma atitude de conquista, sexualizada, maternal e paternal. Conforme se toca, se dança. É como uma trepada. E se não vai por bem é pelo estupro mesmo. Mas vai.
Um diretor é alguém encarregado de harmonizar possibilidades ou vai além disso?
O diretor é um orquestrador dessas diferenças todas. O diretor atua com o gira-pratos, aparelho de circo que promove energia e dinâmica, até que todos os pratos estejam girando na mesma harmonia. Dirigir um gira-pratos na mesma velocidade e equilíbrio é atingir um feito prodigioso, tem de saber recolher todos. Pegar de volta é a parte mais importante, saber devolver o prato sem lasca, remete ao ato de criação, em que se precisa de sensibilidade, leveza e sinceridade.
Você se considera uma diretor ou um contador de histórias?
Não sei se posso me definir como diretor. Mas tenho certeza que sou contador de histórias. Ganhamos a vida com a habilidade de contar a mesma história de maneira diferente. O que importa é o jeito de contá-la. A eficiência em contar história é fruto da relação sadia na parceria com autor, ator e diretor. Da minha vivência com o circo, por exemplo, ficou o conceito de itinerância sobre rodas, de artista mambembe de renovação e necessidade em conhecer outras praças.
Em quais espetáculos seus você sentiu realmente que o público saiu comprometido com o que assistiu?
Espero que em todos, mesmo que seja a negação.
Qual a importância que você vê na formação do ator, ao fazer uma faculdade de artes cênicas?
Se eu exercer a função de médico clínico geral, sem me formar, sem me especializar, é crime. A profissão de ator não é levada a sério nem por quem administra, nem por quem a pratica. Isso porque atuar está no campo do prodígio e nunca foi levado a sério pelo mundo dos menores. Mas isso é realismo fantástico.

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