Zeca sente o impacto dos desregrados 51 anos. ''Quem disser que não sente, tá mentindo. Tenho muita dor nas costas.'' Há seis meses, largou o cigarro, companheiro desde a adolescência. Vez ou outra cede e faz dieta, mas a cerveja ele não larga.
Na tarde da última quarta-feira, deu entrevista numa mesa do restaurante do prédio de sua gravadora, a Universal, na Barra da Tijuca. Entre uma pergunta e outra, suplicava ao garçom: ''Uma cerveja, pelo amor de Deus! Se não tiver aí, manda buscar lá em casa...''
Quem circulava por lá era o netinho Noah, de sete meses, filho de sua filha Elisa. O menino, que também visitou o estúdio, é homenageado por Zeca em 'Orgulho do Vovô', em que ele pede ''ao Criador'' que o bebê, ''criado ao som de um cavaco'', ''seja herdeiro de seu amor pelo samba''.
A vida na Barra em nada lembra a dos anos pré-celebridade. Mas o sítio em Xerém, na Baixada Fluminense, foi mantido, e ainda é lugar de pagode, comilança e cervejada. É de onde sai parte do repertório de seus trabalhos. Em uma dessas ''brincadeiras'', ele ouviu aquela que se tornaria a faixa mais melodiosa deste CD: 'O Som do Samba', de Marcos Diniz, Barbeirinho do Jacarezinho e Luiz Grande, o ''Trio Calafrio'', como Zeca brinca, que já lhe deu o hit Caviar.
Serginho Meriti, de 'Deixa a Vida Me Levar', é coautor de 'Chama de Saudade', composta com Beto Sem Braço (1940-1993), a quem Zeca só se refere como ''professor'' (com ele, compôs alguns de seus primeiros sambas cantados pela massa, como 'Camarão Que Dorme a Onda Leva' e 'Brincadeira Tem Hora').
A deferência vai também à Velha Guarda da Portela, sempre convidada a fazer coro - desta vez, em Dolores, de Monarco e seu filho, Mauro Diniz -, e à Velha Guarda do Império Serrano, afago em Dona Ivone Lara, de quem gravou 'Candeeiro da Vovó'. É a vez do ''samba sem agrotóxico'', como Monarco gosta de dizer.
Zeca é assim, um homem de muitos afetos, e é também por isso que agrada de Irajá à Barra. De seu bairro, aproveita, quando vence a preguiça, o calçadão da praia. Caminha e é cumprimentado por quem passa - não há quem tenha cerimônia com ele. ''Todo mundo fala comigo, o pessoal do caminhão de lixo, o cara do coco, do gelo, os artistas. Vou andando e falando.''
Os tipos risíveis que Zeca canta não ficaram de fora do CD. 'O Garanhão' (''malandro'', ''vacilão''), de Zé Roberto, tema do mal-ajambrado Fortunato de 'Passione', e 'O Puxa-Saco' (''carrapato, cola, chiclete'', que diz ''saúde'' antes mesmo de o chefe pensar em espirrar), de Alamir, Roberto Lopes e Levy Viana, acertam em cheio.

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