UM HOMEM CERCADO PELA MÚSICA
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terça-feira, 26 de setembro de 2000
Mauro Dias Agência Estado 
Baden Powell de Aquino nasceu numa pequena cidade do interior do Estado do Rio, Varre-e-Sai, um antigo posto de pousada de tropeiros. Seu pai fazia sapatos não os consertava, mas desenhava-os e os fabricava e tocava tuba na banda da cidade, era violinista e seresteiro. Era ainda chefe dos escoteiros de Varre-e-Sai daí haver batizado o terceiro filho com o nome do fundador do escotismo.
O avô de Baden era músico profissional. Na verdade, Vicente Tomás de Aquino foi o primeiro maestro negro do interior do Estado do Rio. Chegou a criar uma orquestra, que, certa vez, caminhou negros descalços, pois os sapatos apertavam os pés acostumados ao contato direto com a terra e só seriam calçadas na hora mais nobre até a capital para tocar no Teatro Municipal.
Baden viveu em Varre-e-Sai só até os três meses, quando a família mudou-se para o Rio, primeiramente para Vila Isabel, depois para São Cristóvão, bairros da zona norte da cidade. Na casa de São Cristóvão, o pai frequentava as rodas de música ficou amigo de Geraldo Pereira, Luciano Perrone, Sílvio Caldas. Levava o filho montado em seus ombros. Organizava em casa rodas de choro, que chegaram a ser frequentadas por Donga e Pixinguinha.
Baden tinha 6 anos quando começou a dedilhar o violão da tia a família morava toda junta. Aos 8 anos, na Rádio Nacional, conheceu o violonista Jaime Florence, o Meira, um pernambucano de Pau dAlho que integrava o fabuloso Regional do Canhoto e compôs, entre outras obras-primas, o samba-canção Molambo. Meira foi professor de violão de Baden durante cinco anos. Mais tarde, seria professor de Rafael Rabelo, fato que oferece uma das explicações para as semelhanças estilísticas entre eles. Rafael, que morreu em 1995, com apenas 23 anos de idade, seria o sucessor natural de Baden na grande escola do violão brasileiro.
Baden foi o maior violonista brasileiro e um dos mais geniais que o mundo conheceu. Precoce, era profissional aos 15 anos, com permissão especial do Juizado de Menores. Nessa época, viajou pelo Brasil acompanhando os grandes cantores. Era o caçula, o mascote? Não. Era o gênio. Era o melhor violonista que o dinheiro (para ele, aliás, pouco) podia pagar.
Embora seu nome costume ser associado ao movimento da Bossa Nova, Baden não foi bossanovista, a não ser circunstancialmente. Frequentava esporadicamente o Beco das Garrafas, onde o movimento se firmava, e a casa de Nara Leão, onde se reuniam os mentores da bossa. Chegou a compor algumas músicas nesse estilo. Mas seu negócio era outro: o samba (vide a série de afro-sambas, com Vinícius de Morais, e a formidável produção posterior em parceria com Paulo César Pinheiro), modinhas, alguns choros. Coisas de suburbano.
Além do mais, o violão de Baden Powell tinha pouca afinidade com a surdina do violão da bossa. Baden aprendeu com Meira; o violão nordestino caracteriza-se pelo vigor do toque, em oposição à delicadeza bossanovista.
Não que Baden não fosse delicado. Pelo contrário. Suas melodias sempre primaram pela beleza sensível e suas interpretações ao violão eram cheias de nuances, com improvisos que poderiam ser transformados em novas obras-primas. Mas o toque era viril, as cordas sempre feridas com convicção, a pronúncia muito clara e brilhante.
Baden Powell morou na Europa do início dos anos 70 ao início dos 90, vindo ocasionalmente ao Brasil. Fixou residência uma redundância, brincava em Baden-Baden, na Floresta Negra, na Alemanha. Gravou mais discos na Europa do que no Brasil. Aqui, as obras que deixou gravadas foram esquecidas pelas sucessivas gravadoras por que passou. O que se encontra lançado em CD são antologias que mutilam o caráter dos LPs originais.
Baden sempre bebeu muito, o que, admitiu à biógrafa Dominique Dreyfus, autora de O Violão Vadio de Baden Powell, atrapalhou a carreira. Costumava sumir dias seguidos, percorrendo botequins até que o encontrassem, a pedido da família, que ligava para os jornais e para a polícia. Nos últimos anos, aderiu a uma seita presbiteriana, entre outros motivos para parar de beber. Por convicção religiosa, parou de cantar, por exemplo, o Samba da Bênção, que compôs com Vinícius de Morais, porque a letra dizia saravá para ele, agora, coisa do diabo.
Compôs cerca de 500 músicas, entre as quais Samba da Bênção, Samba em Prelúdio, Consolação, Formosa, O Astronauta, Canto de Ossanha, Valsa do Amor que Não Vem, Berimbau, Lapinha, Samba do Perdão,Violão Vagabundo e Voltei.


