O homem que circula pelas ruas da cidade, continua a frequentar sua livraria preferida - a do Chaim -, visita os amigos, resgata lembranças de um passado eternamente posto em contidos contos, é um sujeito comum. Um cidadão comum. Mais conhecido é o personagem que se impregnou de silêncio, num gesto contraditório para quem fala ao mundo através das páginas dos livros. Dalton Trevisan carrega nas costas esses dois destinos.
Rosana Albuquerque, coordenadora de Literatura da Fundação Cultural de Curitiba, ex-vizinha do escritor, é grata a ele porque, pela importância de sua arte, levou longe o nome de Curitiba. ‘‘Dalton projetou-a na literatura nacional e mundial’’.
Mesmo sendo uma das poucas referências paranaenses de grande valor, ainda assim não lhe dão o devido reconhecimento, na opinião de Rosana. O texto de Trevisan jorra cenários e personagens curitibanos com traços e essências universais. Tudo aquilo que ele mostra emoldurado por um nome de rua ou de bairro da capital, é a narrativa do que pode acontecer em qualquer parte do mundo.
‘‘Ele é atual com sua solidão, com seus homens e mulheres trágicos e cruéis. É uma visão muito crítica, com a qual Curitiba se identifica’’, afirma Rosana. Não importa se as crônicas têm imagens de 40 anos atrás; o que vale é a atualidade retratada. ‘‘Esse é mais um dos motivos porque Trevisan deveria ser melhor reconhecido. É um grande escritor e nem sempre se dão conta disso’’.
A professora Cassiana de Lacerda comenta que o escritor, mesmo sendo ‘‘detentor do mérito de haver colocado Curitiba na geografia literária’’, é maior que a cidade. Buscando aquela que mergulhou no passado faz dela, magicamente, ‘‘um lugar além da geografia e do tempo’’.
Explica a professora que o Vampiro - ‘‘signo da reificação do outro’’ -, mesmo sendo ‘‘um funcionário público de bigodinho ou um interlocutor, por vezes asqueroso’’ acaba por se revelar num processo ‘‘no qual a linguagem, sua absorção e concisão é a pedra de toque’’.
Em suas considerações Cassiana lembra que o escritor afirmou a disposição em partir do conto para o haicai, passando pelo romance, se assim pode classificar-se ‘‘A Polaquinha’’.
Depois de reescrever e burilar textos, o escritor presenteia os leitores com ‘‘haicais-mais-que-aforismos, cujo choque é a revelação feita do domínio da linguagem e da contemplação da eterna miséria humana que nos tornam em parte seus heróis e suas vítimas’’.
O publicitário José Oliva por algum tempo foi embalado com a idéia de produzir um musical sob o inspirado título ‘‘Mulheres de Dalton’’. Ele queria colocar no palco as figuras femininas que nos livros aparecem como seres de mundos diversos e extremamente próximos. Apanham, traem, são traídas, envenenam-se com o ódio de cada dia, preparam com carinho a morte do parceiro, roem-se no ciúme e na desconfiança.
Sem procurar intermediários para se aproximar do escritor, como costuma acontecer, meses atrás Oliva foi bater no endereço onde o Vampiro se enclausura. Quem o atendeu foi o próprio, um senhor cordato, atencioso e objetivo. ‘‘A primeira sensação que tive é que ele não é de meias palavras’’, lembra o publicitário. ‘‘É igualzinho ao seu texto, enxuto e direto. Telegráfico’’.
José Oliva disse-lhe a razão de estar ali, e queria sua aprovação para levar adiante o projeto. Dalton permitiria isso? ‘‘Se for alterar as palavras que escrevi sobre meus personagens, eu não admito’’. Assim como é a peça ‘‘O Vampiro e a Polaquinha’’ nada, absolutamente, pode ser modificado. Nem uma vírgula.
Com essa concisão toda, o compositor e publicitário brincou com o escritor, sugerindo-lhe a carreira de letrista. ‘‘Você acha?’’, respondeu Dalton, com um jeito quase evasivo, porém traindo um certo gosto e, mesmo, simpatia pela idéia.
O projeto não vingou, a publicidade levou Oliva para outras bandas, e o que ficou para o moço desse encontro, foi a sensação de ter batido na porta de um vizinho ‘‘pedir emprestado um pouco de pó de café, porque o meu acabou’’.
Em outras palavras, Dalton Trevisan não é mito nem vampiro. ‘‘É uma pessoa simples, que tem um encantamento diferente, diria até irônico’’, arrisca o publicitário. Um homem que percorre nas manhãs de sol sua cidade, acompanha as mutações de suas ruas e caminha pelos parques. Do cotidiano ele despe as cores, tinge de tons sépia e recria um outro mundo.

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