Um história descida do céu
PUBLICAÇÃO
domingo, 29 de junho de 1997
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
Algumas obras ocupam um espaço especial no coração da humanidade. São obras trafegando entre a literatura e visões cosmológicas que carregam a síntese espiritual e moral do civilização que as criaram. A Bíblia, o Torá, o Livro Tibetano dos Mortos, o Corão, os Sutras, o Ramayana e outros livros que tornam-se eternos, atravessam os tempos como se corressem por um jardim.
Entre estas obras está o magnífico Mahabharata, épico hindu que conta a história dos homens utilizando o arquétipo do herói justo e íntegro como elemento narrativo. A última montagem do Armazém Companhia de Teatro, que se inspirou neste clássico para construir o espetáculo Sob o Sol Em Meu Leito Após a Água de Paulo de Moraes, trouxe à lembrança uma história que após 25 séculos de ter sido criada ainda emociona e arrepia seus leitores.
O Mahabharata é considerado um dois maiores livros do mundo. Escrito em sânscrito, é o mais logo poema da história da humanidade. Com mais de cem mil estâncias, equivale a 15 vezes o tamanho da Bíblia.
Nascido da tradição oral, sem autor definido, seu texto começou a ser compilado no século 5 a.C. e assumiu sua forma definitiva no séculos 3 d.C. Está totalmente vinculado às tradições indianas, com seu panteão de deuses, uma infinidade de lendas, fábulas morais, sociais e cosmológicas.
Totalidade A lenda sobre a obra é tão grande que um famoso provérbio diz: Tudo o que se encontra no Mahabharata está em outra parte. O que não está nele, não está em parte alguma. Ou seja, a obra comporta todas as possibilidades dos sentimentos humanos, um tipo de baú que guarda uma coleção completa de arquétipos. O própria palavra Maha significa grande, total, e Bharata é o nome de lendário sábio que deu origem a um clã, mas também significa homem. O Mahabharata pode ser traduzido como A Grande História dos Bharatas ou A Grande História da Humanidade.
A obra narra, em termos gerais, a guerra entre dois clãs, os Pândavas e os Kurus (ou Káuravas) que pertencem a uma mesma família. Os Pândavas, ocupando estéreis, erguem um reinado próspero e justo. Seus primos, os Kurus, invejando tal feito os desafiam para um jogo de dados. Trapaceando, terminam por ganhar todo o reino dos Pândavas, que são obrigados a permanecer 12 anos em exílio numa floresta. Após o exílio, a guerra é algo inevitável, uma guerra que mistura os poderes divinos a força dos guerreiros. Há uma grande quantidade de personagens que são filhos de mulheres fecundadas por deuses. A comunhão entre deuse e homens é constante: cada um recebe um poder específico que precisa cultivar para não cometer injustiças. A figura do guerreiro é determinante como um componente arquético que, tanto na vitória como na derrota, simboliza o caminho em busca de si próprio.
Contemporaneidade Em termos literários, O Mahabharata depois de milênios permanece tão contemporâneo quanto os mais recentes obras que trabalham com a metaliteratura. A história é narrada pelo sábio Vyasa que, depois de permanecer dezenas de anos em retiro solitário na floresta, procura alguém para escrever seus relatos. O deus dos escritores e músicos, Ganesha, com cabeça de elefante, se apresenta para fazê-lo. Ao mesmo tempo que Vyasa cria a história, os personagens se materializam ao seu redor. Personagens que chegam a discutir com o autor sobre seus próprios destino, sobre as melhores soluções para que a história chegue ao seu objetivo final.
Em certo ponto da narrativa, todos herdeiros homens morrem pelas mãos do destino - ou de Vyasa, o autor. Para a perpetuação do clã, e da própria história, Vyasa é levado a fecundar três princesas viúvas e sem filhos, nascendo assim, três crianças, os futuros grandes heróis da narrativa. Ou seja, o narrador, o autor do livro mantém relações sexuais com suas personagens, fecundando-as. Seus filhos serão seus personagens. Ele será, ao mesmo tempo, autor e pai. Os limites entre realidade e ficção são completamente eliminados.
Outro elemento de metaliteratura está no fato de que dentro do Mahabharata existe um outro livro, o Bhagavad Gita, obra de grande impacto espiritual. Quando a grande guerra que poderá destruir a Terra ou restaurar sua ordem está para ser iniciada, o grande guerreiro Arjuna depõe suas armas no meio do campo de batalha. Num momento de questionamento desiste de dar início à guerra. Neste momento, Krishna, seu grande conselheiro, congela o tempo, congela a batalha e diz a Arjuna por que ele deve guerrear. Esta narrativa, palavras em tom profético, é o Bhagavad Gita, literalmente A Canção do Senhor que expõe o poder divino e a unidade dos mundos. Como se um parêntese fosse aberto dentro de um livro para que seja escrito um outro livro. Um procedimento que ganhou dimensões mais amplas neste século pelas mãos do escritor Jorge Luis Borges
Em Português Existem apenas duas versões do Mahabharata publicadas no Brasil, ambas resumidas e bem realizadas. Conseguem manter a alma da história pulsando em cada episódio.
A primeira delas é a versão contada pelo pesquisador norte-americano William Buck, publicado pela Editora Cultrix. Buck descobriu a literatura indiana aos 20 anos de idade e entrou de cabeça na tarefa de realizar a versão de Mahabharata e de Ramayana (outra lendária obra da literatura hindu) para os leitores contemporâneos. Morreu prematuramente em 1970, com 37 anos de idade, deixando versões de outras obras inacabadas.
A segunda versão, mais recente, é a realizada pelo roteirista de cinema e dramaturgo francês Jean-Claude Carriere, publicada pela Editora Brasiliense. O Mahabharata contado por Carriere nasceu de uma adaptação para teatro levada aos palcos europeus pelo diretor Peter Brook em 1985. A peça tinha nove horas de duração e permaneceu durante três anos em cartaz percorrendo várias partes do mundo. Logo em seguida foi realizado o filme O Mahabharata com roteiro de Carriere e direção de Brook, onde a linguagem teatral foi transportada com elegância para linguagem cinematográfica. Com três horas de duração o filme (atualmente disponível em vídeo) recebeu o prêmio de melhor filme na 14ª Mosta Internacional de Cinema de São Paulo, em 1990. Após a peça e o filme Carriere empenhou-se em transformar O Mahabharata na forma de livro, numa linguagem romanceada.
Sendo o Mahabharata uma intricada ramificação de histórias, lendas e fábulas quase paralelas ao enredo central, a versão de Buck e Carriere são bem diferentes. Ambas mantém intacta a estrutura, mas seguem escolhas diferentes. Se por um lado Buck procura dar a história um caráter fundamentado na mitologia indiana, Carriere parte a mesma mitologia para dar à história um caráter universal. Há episódios que aparecem na versão de Buck e não na de Carriere e vice-versa. Pode-se dizer um uma versão complementa a outra e as duas juntas oferecem uma maior compreensão da história como um clássico que oferece múltiplas leituras.
Mahabharata é uma obra que envolve o leitor levando para um lugar onde a vida é considerada como postura ética. Em outras palavras: há uma lei que rege a ordem secreta e pessoal que cada um traz em si e à qual é preciso obedecer. Esta lei que constitui cada indivíduo, se for respeitada, garante a ordem cósmica. E vice-versa. Se ela é protegida, ela protege. Se ela é destruída, ela destrói.
q Mahabharata , recontado por William Buck, Editora Cultrix, tradução de Carlos Afonso Malferrari, 367 páginas, R$ 22,00.
q O Mahabharata , contado por Jean-Claude Carriere, Editora Brasiliense, tradução de Noêmia Arantes, 270 páginas R$ 21,70/Livraria Rosa do Povo.


