Um hino à liberdade
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 05 de janeiro de 1998
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
ReproduçãoItalo Calvino: história mostra duas metades do homem para mostrar o ser contemporâneo, incompleto em si mesmo O escritor italiano Italo Calvino, em 1960, decidiu reunir três de seus romances escritos no decorrer da década de 50 num único volume chamado Os Nossos Antepassados (Il Nostri Antenati). A trilogia era composta pelas histórias O visconde partido ao meio, O barão nas árvores e O cavaleiro inexistente. Publicadas no Brasil na forma de livros distintos, elas ganham agora a edição idealizada por Calvino.
Lançada pela editora Companhia das Letras, Os Nossos Antepassados traz um prefácio assinado pelo autor que joga luz em seus objetivos na criação dos três romances, as conexões entre eles e o desenvolvimento dos personagens. A síntese destes três romances, nas palavras de Italo Calvino (1923 - 1985), está na eterna busca da liberdade: Eu quis fazer delas uma trilogia da experiência da realização como ser humano: em O cavaleiro inexistente, a conquista do ser; em O visconde partido ao meio, a aspiração a uma completude para além das mutilações impostas pela sociedade; em O barão nas árvores, um caminho para a completude não individualista a ser alcançada por meio da fidelidade a uma autodeterminação individual: três níveis de aproximação da liberdade. Gostaria que as histórias pudessem ser vistas como uma árvore genealógica dos antepassados do homem contemporâneo, em que cada rosto oculta algum traço das pessoas que estão a nossa volta, de vocês, de mim mesmo.
Em O visconde partido ao meio (Il visconte dimezzato) Calvino narra a história do jovem visconde Medardo di Terralba. Em meio a guerra dos cristãos contra os turcos, Medardo parte para a aventura de vingar a morte do pai esquartejado por cimitarras turcas. Em meio ao cumprimento de sua vingança, o jovem é atingido por uma bala de canhão que o dilacera dividindo-o ao meio.
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Um dos lados do corpo de Medardo, o lado direito, é encontrado e recebe cuidados médicos recuperando-se. O lado esquerdo permanece esquecido no campo de batalha. O visconde passa a viver tranquilamente com a metade do corpo, mas seus hábitos se transformam, passa a agir com extrema maldade, como se a metade do corpo que lhe restou fosse a parte má de seu ser.
A outra metade de Medardo, o lado esquerdo, a parte boa, é encontrada casualmente por monges e recebe os devidos cuidados, sobrevivendo. As duas metades passam a vagar pelo reino espalhando cada qual bondade e maldade. Uma parte procura reparar as maldades realizadas enquanto a outra ocupa-se em destruir atos benéficos. Tornam-se inimigos e apaixonam-se pela mesma mulher. Certo dia um duelo torna-se inevitável, o duelo que unirá as partes.
Italo Calvino, no prefácio de Os Nossos Antepassados, escrito em 1960, diz que sua preocupação primeira não era a dualidade do bem e do mal, mas a divisão ao meio. A imagem do homem contemporâneo incompleto, inimigo de si mesmo. O homem alienado de acordo com Karl Marx ou reprimido segundo Sigmund Freud. Em suas palavras, a intenção era combater todas as divisões do homem, auspiciar o homem total.
Em O barão nas árvores (Il barone rampante) Calvino conta a história de Cosme Chuvasco de Rendó, primogênito do Barão de Rondó. Após um pequeno conflito com o pai - Cosme se recusa a comer uma sopa de escargots - o garoto sai correndo de casa fugindo de uma surra. Subindo numa árvore do jardim, consegue evitar a fúria do chicote do pai. Jura, num ato de rebeldia juvenil, que nunca mais colocaria os pés no chão.
A jura torna-se lei e o que parecia ser um ato de rebeldia assume a forma de um sentido existencial. Cosme segue em frente sua decisão e passa a criar todos os mecanismos para viver sobre as árvores. Pulando de galho em galho, percorre jardins, florestas e cidades. Constrói uma casa, aprende a caçar, pescar, cozinhar e dormir nas árvores. Amante do conhecimento, chega a construir uma biblioteca nos galhos de um olmo com a ajuda de seu fiel amigo, o cão bassê Ótimo Máximo.
Com a morte do pai, Cosme assume o título de barão e exerce seu mandato nas árvores. Admirador de Voltaire e Rousseau, chega a escrever o Projeto de constituição de um Estado ideal fundado em cima das árvores imaginando uma sociedade habitada somente por homens justos, a República Arbórea.
Para Calvino, nesta história, o verdadeiro tema narrativo é o mesmo que permeia todos seus livros: Uma pessoa se impõe voluntariamente uma regra difícil e a segue até as últimas consequências, pois sem esta não seria ele mesmo nem para si nem para os outros. No caso do personagem Cosme, quando os motivos que o levaram a viver nas árvores desaparecem, ele não muda de posição. Os motivos são apenas um pretexto para alcançar uma plenitude pessoal submetendo-se a uma árdua disciplina voluntária. Nas palavras do escritor, nos dias de hoje este tipo de excentricidade está praticamente extinta: É claro que hoje vivemos num mundo de não-excêntricos, de pessoas cuja individualidade mais simples é negada, a tal ponto se acham reduzidas a uma soma abstrata de comportamentos preestabelecidos. O problema hoje não é mais o da perda de uma parte de si mesmo, mas a perda total, o de não ser mais nada.
CruzadaEm O cavaleiro inexistente (Il cavaliere inesistente) Italo Calvino narra as peripécias do cavaleiro Agilulfo que luta pela causa cristã no exército de Carlos Magno. O detalhe é que dentro da bela armadura usada por Agilulfo não há nada, apenas uma voz. Um cavaleiro vazio em busca de feitos para afirmar sua existência. Como um romance de cavalaria ao avesso, o cavaleiro inexistente é acompanhado por Gurdulo, um escudeiro completamente louco. Enquanto um está privado e individualidade física, o outro está privado de individualidade de consciência.
Nesta história, a narradora, uma freira enclausurada num convento, questiona a si mesma sobre o ato de escrever. Mais especificamente da incapacidade de encontrar um sentido para a literatura a não ser fora dela. Conhecida pelo nome de Bradamante, ela deixa um recado: Assim, tanto sobre o amor como sobre a guerra, direi de boa vontade aquilo que consigo imaginar: a arte de escrever histórias consiste em saber extrair daquele nada que se entendeu da vida todo o resto; mas, concluída a página, retoma-se a vida, e nos damos conta de que aquilo que sabíamos é realmente nada.
Nos três romances coroados de humor o papel da mulher é determinante. Quando os personagens se apaixonam, ocorrem mudanças de rotas. As transformações que o amor provoca constroem um sentido em seus futuros. A imagem de um labirinto de lágrimas e sorrisos, dores e prazeres. Depois de atravessá-lo, um bilhete jogado no chão parece dizer: Não pode haver amor se não somos nós mesmos com as nossas próprias forças.
Os Nossos Antepassados de Italo Calvino, tradução de Nilson Moulin, Editora Companhia das Letras, 489 páginas, R$ 31,00/Livraria Rosa do Povo.


