Um herói tropical
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sexta-feira, 31 de julho de 1998
Adriana Pais Agência Estado 
Arquivo FolhaMário de Andrade: o autorMacunaíma, o Herói Sem Caráter, obra do escritor modernista Mário de Andrade, completa 70 anos. Escrita numa época de grande transição artística e cultural no País, a obra continua atual até hoje. O anti-herói de Mário de Andrade nasceu em meio a um movimento que ganhava espaço entre os escritores, o Modernismo. Estilo influenciado pela vanguarda européia, que renovou o mundo artístico nacional, principalmente após a realização da Semana de Arte Moderna de 22.
Conhecido por sua falta de caráter, eterna preguiça e pelo seu dístico muita saúva e pouca saúde os males do Brasil são, Macunaíma representa a realidade brasileira com um filão cômico. O herói feio e negro criado por Mário de Andrade transforma-se, como num passe de mágica, num homem loiro e lindo. A idéia do autor foi representar o choque do índio amazônico com a tradição e a cultura européia. Dono de uma personalidade contraditória e imprevisível, Macunaíma também é passível de derrotas, diferente dos heróis românticos.
O livro foi adaptado para o cinema e para o teatro. A versão cinematográfica estreou 41 anos depois da obra escrita. O roteiro de Joaquim Pedro de Andrade é antropofágico e tropicalista, influenciado pela época que foi filmado, no final dos anos 60.
Arquivo FolhaUma das edições de MacunaímaNo teatro, o sucesso junto ao público e crítica foi surpreendente. Com adaptação do próprio elenco do Grupo Pau Brasil (que depois passou a se chamar Grupo Macunaíma), coordenado pelo diretor Jaques Thieriot, a montagem foi dirigida por Antunes Filho. Macunaíma esteve nos palcos de vários países da Europa e nos Estados Unidos. A cada apresentação algumas modificações eram realizadas, de acordo com as circunstâncias vividas na ocasião, o que manteve o texto sempre atualizado.
A peça inovou o teatro profissional, tanto estética como dramaturgicamente, com sua linguagem viva e menos convencional. Apesar de apresentar nos seus cenários e figurinos materiais, como madeira e capim, e a base musical ser basicamente calçada na cultura indígena, não era um espetáculo folclórico. O erotismo e a sensualidade foram tratados de forma natural.
A versão cinematográfica de Macunaíma, produzida em 1969, empreendeu uma abordagem bem mais politizante na sua essência, e muito mais extravagante na sua forma, do que a peça de Antunes Filho. Privilegiou as relações dominador-dominado da cultura brasileira com fontes estrangeiras. Foi produzido numa época de grandes mudanças nas estruturas social e econômica do Brasil, promovidas por movimentos organizados que pediam a popularização da cultura no País.
Foi um período de grande efervescência intelectual e artística, com manifestações diversas, como o Teatro de Arena, o Cinema Novo e o Tropicalismo, que resultaram numa tomada de consciência por parte dos produtores da cultura frente aos problemas enfrentados na época. O filme é, portanto, mais crítico do que o livro.
O herói que ao nascer grita sua preguiça, é interpretado por Grande Otelo, que incorporou com excelência o personagem. O elenco era composto ainda por Paulo José, Dina Sfat, Jardel Filho, Milton Gonçalves, entre outros. O sucesso de Macunaíma foi atribuído pela crítica ao retrato fiel da proposta inicial do texto de Mário de Andrade que as produções conseguiram manter nas diferentes montagens apresentadas ao público.


