Um herói que serve ao amor
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
A fantasia erótica embaixo do elmo de Dom Quixote, o cavaleiro quatrocentão, que nunca perdeu a vitalidade literária, ainda exerce um fascínio sensual entre as páginas e aventuras fantásticas de Miguel de Cervantes que, em outras palavras, - mais singelas e castas - revelam um herói que serve ao amor.
''Altas Cavalarias - Dom Quixote e seus Precursores'', ensaio do historiador Marcos Antônio Lopes, professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina, percorre as andanças filosóficas embaixo da armadura desses personagens, encontrando no homem da Triste Figura a virilidade da ascensão e queda de um gênero que, no Brasil, movimentou peças no jogo literário de Gonçalves Dias e José de Alencar.
Além de um requintado trabalho de ilustração de Bruno Cerkuenik e Fabiano Rocchi Marçal, o ensaio oferece uma leitura saborosa antecipada pelo prefácio da jornalista Maria Helena de Moura Arias ao justificar o livro, entre outras coisas, pelo que a posteridade tem para definir a sorte dos heróis literários.
O próprio Cervantes montado num Rocinante pronto para enfrentar os exércitos do ostracismo, que derrotam autores menos robustecidos, chegou aos dias de hoje inabalável ainda que, como ressalta o ensaio, tenha ao seu tempo colecionado fracassos.
Lopes põe o autor entre os enigmáticos e complexos, não cabendo em nenhum modelo teórico capaz de esgotar o sentido global da obra. Um Shakespeare de língua espanhola que o historiador ilumina com a luz dos personagens clássicos: Quixote e Hamlet - irmãos gêmeos na divina grandeza.
Paródia dos romances de cavalaria, as aventuras quixotescas vão além dos feitos heróicos. Lopes cita o filósofo holandês Johan Huizinga ao afirmar que a obra carrega uma sensualidade que transforma a ânsia do herói em sacrifício viril. Capaz de sangrar até a morte diante da amada. No enredo, a mulher é como um ardil, reduzida à condição de objeto de prazer.
A espada e o escudo de Quixote são armas para o autor lutar mais do que contra os leões famélicos que o herói em farrapos enfrenta na obra, sendo potentes na função cultural e social endurecendo diante dos greves problemas políticos e nacionais da época.
Lopes argumenta que a eternidade de Quixote é uma estrela de brilho universal que de qualquer ponto da terra dos domínios literários é possível enxergar o fulgor. O que torna o estilo sempre próximo por ser um sol que aquece os leitores que olham em sua direção.
É clara a alegoria existente na obra, mas o historiador a circunda para o leitor, facilitando perceber o escárnio de Cervantes a algumas crenças que começavam a ruir. O que faz rir da desgraça alheia na carapaça de Quixote é a própria realidade, que o persongem vai moldando pelo caminho. Para o fidalgo, um moinho de vento é um gigante perigoso e rebanhos de cabra se insurgem como exércitos inimigos.
O autor do ensaio cita o sociólogo alemão Norbert Elias que compara o cavaleiro a um radical livre em seu tempo, como um personagem desintegrado, que só poderia ser obra da maturidade de Cervantes. Para animar os que ainda não mergulharam nas tramas filosóficas do tecido que compõe a armadura com que a obra de Cervantes combateu o esquecimento, Lopes lembra que o ''pai de Hamlet'' teria lido o criador de Quixote - ainda que este não soubesse da existência de um tal Shakespeare.
SERVIÇO
- Altas Cavalarias - Dom Quixote e seus Precursores
Autor - Marcos Antônio Lopes
Editora - Eduel
Páginas - 82
Quanto - R$ 45


