Arquivo FolhaTiradentes: a barba teria crescido na prisão, onde lhe tiraram a navalha para que não se suicidassePassados 205 anos de sua execução, Tiradentes continua sendo motivo de divergências entre os historiadores, a cada 21 de abril. A maior parte das versões mais recentes procura derrubar o mito do romantismo do movimento por ele liderado, e também se especula até hoje se Tiradentes tinha barba ou não. Para o historiador mineiro Afonso Ávila, a Inconfidência não foi um movimento romântico e ingênuo de alguns intelectuais, mas sim uma conspiração cuidadosamente organizada durante muitos anos, contra os abusos da Coroa Portuguesa.
O historiador Paulo Micelli - autor do livro ‘‘O Mito dos Heróis Brasileiros’’ - afirma, por sua vez, que não foi apenas o amor à Pátria que motivou a conspiração - o desejo de livrar-se dos altos impostos e até mesmo a ambição pessoal pesaram muito na decisão dos que resolveram apoiar o movimento. Outro historiador, Francisco Iglesias, diz que Tiradentes ‘‘falava demais’’. Já o escritor Luiz Wanderley Torres é mais radical: ‘‘Tudo que se ensina sobre Tiradentes é errado’’, afirma.
Mito Depois de estudar durante cinco meses as oito mil páginas dos Autos da Devassa - o principal documento sobre a Inconfidência - Afonso Ávila descobriu, entre outras coisas, que o direito à assistência previdenciária já era previsto nos planos dos rebeldes. ‘‘Todo cidadão teria direito à assistência médica gratuita, a asilo, auxílio maternidade e ao salário-família’’, observa o historiador. Ele lembra ainda que, quando Tiradentes foi preso, em 1789, os inconfidentes já tinham definido a forma e a organização do Estado republicano, além de um programa de governo que, na sua opinião, só poderia ser elaborado por gente que conhecia muito bem a literatura pré-revolucionária francesa e a organização política dos Estados Unidos na época.
Para Paulo Micelli, Tiradentes era inofensivo e seu mito foi manipulado ao longo dos tempos. Ele observa que, entre as controvérsias, está o rosto de Tiradentes: como ele era, na verdade? Segundo Micelli, além da apresentação do herói com uma feição semelhante à de Jesus, há também quem o veja como um imponente oficial, sem barba. Segundo o coronel PM reformado Cleber Barsante, esta segunda imagem de Tiradentes está mais próxima da realidade porque, de acordo com os documentos da época, um alferes não poderia usar barba. Barsante presidiu, em 1992 (ano do bicentenário da morte), a comissão encarregada de estudar a imagem verdadeira de Tiradentes.
A verdade Em seu livro ‘‘Tiradentes: a Áspera Estrada para a Liberdade’’, de 462 páginas, Luiz Wanderley Torres comprova, entre outras coisas, que Tiradentes não era analfabeto, como dizem algumas versões. Ao contrário, garante o historiador, ele sabia até o idioma francês. Torres também garante que Tiradentes deixou a barba e o cabelo crescerem só depois de sua prisão no Rio, já que lhe tiraram as navalhas para se barbear, com medo de que ele cometesse suicídio. Torres também afirma que Tiradentes nunca foi maçom - e aí talvez a confusão tenha sido causada pelo símbolo do movimento adotado pelos inconfidentes.
Entre os motivos que o leva a crer que a história verdadeira nunca foi ensinada, Torres aponta as semelhanças com Cristo: 1) o perdão ao carrasco; 2) a caminhada até o lugar do enforcamento, carregando um enorme crucifixo; 3) o número dos inconfidentes era igual ao dos apóstolos; 4) o ’’traidor’’ (Joaquim Silvério dos Reis).
Francisco Iglésias, historiador brasileiro que integra a Comissão de História da Unesco, prefere chamar a atenção para outro aspecto de Tiradentes - a ingenuidade: ‘‘Ele falava demais. Convidava pessoas nas quais não podia confiar e falava alto sobre seus planos, nas tabernas. Mas sua maior grandeza está no fato de ter chamado para si a culpa da conspiração, para proteger os companheiros.’’

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