Um guitarrista em catarse
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de abril de 1997
Luiz Claudio Oliveira Sucursal de Curitiba 
Gilson CamargoAndré Christovam: Disco é todo feito com a preocupação de ter o menor número de emendas possível e ao mesmo tempo ser uma obra de estúdioBobby deve estar orgulhoso. Bobby é um cachorro. Isso mesmo: um cão peludo de quatro patas. Mas ele deve mesmo estar com o ego inflado, afinal foi para ele a dedicatória do disco Catharsis, que é o novo trabalho de seu dono, o guitarrista André Christovam. Chega de dedicar disco para as mulheres, essas cadelas vadias. Então dedico ao meu amigo mais fiel, o Bobby, ataca.
A afirmação acima tem mais de galhofa do que de mágoa, mas o fato é que o disco realmente foi feito após uma desilusão amorosa entre outras decepções na vida do músico. Na contracapa do encarte está explicado o significado do título Catharsis: a purificação ou limpeza figurativa das emoções, uma forma de lidar com sentimentos e sensações fortes ou negativas e expressá-las ou experimentá-las através de forma escrita, falada, teatral, musical etc.
Uma outra emoção forte que Christovam sofreu durante a gravação foi a morte de seu melhor amigo, o empresário e também músico Luis Tjurs, que ficou mais conhecido como o namorado da modelo Ana Paula Arósio, que se suicidou. No trágico item perda de amigos, o guitarrista vem acumulando a angústia desde 1991, quando morreu Andrew Odom, cantor norte-americano com o qual gravou o CD 2021 Sessions.
Estávamos com uma boa parceria e tinha até programado passar parte do ano nos EUA para começar um trabalho naquele mercado. Tínhamos lançado o disco e ele morreu dias antes de começarmos a turnê de lançamento pelo Brasil. Perdi um amigo e uma nova carreira, lembra André.
Nova carreiraMesmo com esta triste história de perdas, o disco não soa inteiramente triste ou chorão. O guitarrista usou a sua Dorothy - uma Fender Stratocaster de 1962 - para exorcizar o passado e a partir deste disco encerrar uma fase de sua carreira - o que significa, ao mesmo tempo, iniciar uma nova fase.
Algumas pessoas, interpretando mal as palavras de Christovam, têm repetido que ele vai abandonar o blues. Isso é impossível, conhecendo-se a história do músico que se interessou pelas cordas quando ouviu Howlin Wolf e, depois, o Cream, do guitarrista Eric Clapton, duas de suas principais influências.
O que André Christovam pretende é utilizar mais o violão e começar a fazer shows acústicos, só ele e a viola. Mas jamais vai tirar o blues do sangue. Deve mudar para fazer algo como fazem bluseiros americanos do calibre de John Hammond Jr. e Steve James, inspirados sempre no mestre Robert Johnson.
Mas vamos voltar ao disco que está sendo lançado pela Blues Brasil, um novo selo criado pela Movieplay, empresa fonográfica portuguesa para sua entrada no país. Através deste novo selo já foram lançados também CDs de Clara Ghimel, baiana que foi produzida pelo próprio André, e Bruce Ewan, gaitista que também já lançou com André o CD Mississippi Saxophone.
DedicaçãoCatharsis tem apenas quatro faixas compostas por Christovam, as demais são assinadas por pessoas pouco conhecidas do público em geral, mas idolatradas por quem gosta de blues. São ao todo 12 faixas com diversos estilos.
O disco é todo feito com a preocupação de ter o menor número de emendas possível e ao mesmo tempo ser uma obra de estúdio, isto é, sem a preocupação de gritar gravando e o grupo todo fazer um registro de uma vez só. É claro que há overdubs , mas procurei gravar a participação da guitarra em uma só vez. Eu ficava tocando várias vezes até que sentisse que tinha conseguido uma sonoridade adequada para cada música. Ele defende que num solo o que vale é o ataque que o músico dá, além, é claro de suas escolhas antecipadas de afinação e timbre.
FerimentoEsta preocupação fez com que o guitarrista se trancasse no estúdio Mosh por até 36 horas seguidas, com pequeno intervalo para comer alguma coisa. Tanta dedicação acabou ferindo um dedo da mão esquerda, obrigando que parte de alguns solos fossem feitos com bottleneck (aquele tubinho que se encaixa no dedo e escorrega sobre as cordas).
O Luis Carlini (guitarrista do Bartenders e do Camisa de Vênus) diz que eu machuco os dedos porque em vez de cordas uso cabos telefônicos na guitarra, assume. Não é para, menos, ele usa encordamento Power Slinky Nickel 11, 14, 18, 28, 38 e 0.48 nas guitarras, como revela na revista Guitar Player. Não gosto dessas cordinhas viadinhas tipo 0.9, diz, mostrando desprezo pelo tipo de cordas usada por dez entre dez iniciantes e mesmo por profissionais da guitarra.
Os destaques do disco são I Like It This Way (de Danny Kirwan, guitarrista do Fleetwood Mac) em que o músico reveza-se entre a Strato 62 e uma Gibson SG 64. Em Sad Hours (de Little Water), ele fez algo que nunca tinha feito antes, tirou nota por nota exatamente como estava na gravação original, de 53 - foi daí que Eric Clapton tirou seu jeito de tocar guitarra.
A gravação de Aint No Sunshine (de Bill Withers) é considerada por Christovam como sua melhor performance em disco. O solo foi tirado na primeira passagem tocando depois de ter sido gravada a base. Após ouvir, ele desistiu de cantar para não estragar o solo que havia saído perfeito.
Por fim, fecha o disco a faixa No Expectations (dos Rolling Stones, gravada originalmente com Brian Jones e que consta do álbum e vídeo Rock And Roll Circus). A versão de André está simplesmente ótima, com um clima de cabaré. Foi gravada no dia seguinte ao suicídio do amigo Luis Tjurs.
O cachorro Bobby também ganhou duas faixas no disco que são Bobby Is Asleep que é uma vinheta instrumental que o autor diz ser inspirada no concerto Quadros de Uma Exposição, de Mussorgski. A outra é Chewing Bone Blues, em que o guitarrista toca pela primeira vez uma guitarra havaiana. A Bobby é dado também o privilégio de abrir o CD com sua voz rouca.
Ah sim, eis a dedicatória de André Christovam para seu cão boxer: Este CD é dedicado ao meu filho de quatro patas Bobby pela sua forma de amar pura e incondicional.


