Um grito da criação
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 25 de fevereiro de 1997
Francelino França 
Milton DóriaPatrícia Selonk transita livremente entre o desespero e a docilidade, entre a explosão dramática e a poesiaOut Cry - clamor, grito - de Tennessee Willians, foi escrita em 1973, depois de uma fase de relativo ostracismo do autor. A montagem deste texto pelo Armazém Companhia de Teatro comemora oficialmente os 10 anos de atividades do grupo e resgata o consagrado autor norte-americano. A tradução, inédita no Brasil, passou pelas mãos do londrinense Maurício Arruda Mendonça.
O texto não poderia ter ficado mais ágil. Frases curtas, que muitas vezes nem se completam, propiciam uma irressistível espontaneidade ao texto. Dispensável, porém, foram os cacos inseridos pelo diretor Paulo de Moraes. Algumas citações incluídas na montagem soam como piada particular. Afinal, Tennessee Willians não escreveu a peça para o Armazém Companhia de Teatro.
O diretor Paulo de Moraes dispensou cenários e figurinos refinados. Optou por um cenário despojado, econômico e funcional: um paredão de tijolos à vista, um baú, uma escada e um conjunto de estruturas metálicas. Os atores estão encurralados naquele paredão, sem outra saída, a não ser exorcizar os fantasmas. Ele reduziu também ao máximo a música. O trabalho de direção se concentrou, sobretudo, nos dois atores, que ocupam o espaço cênico com desenvoltura.
O palco é um ambiente explosivo onde Patrícia Selonk e Narlo Rodrigues mostram que para representar a insegurança dos personagens é preciso estar seguro daquilo que se faz. Patrícia Selonk dispensa apresentações. Ela está vivendo um grande momento na carreira, ao percorrer o universo de Tennessee Willians. Abandonando a voz gutural, característica de seus últimos personagens, ela transita livremente entre o desespero e a docilidade, entre a explosão dramática e a poesia. Em uma hora e meia de espetáculo, num ambiente quase neutro, ela vai desdobrando as nuances da atormentada Clara. Em alguns momentos, Patrícia imprime um ritmo desenfreado, quebrando esse jogo logo a seguir com intensa suavidade. As comparações entre a atuação dos dois atores são inevitáveis. A superioridade de Patrícia Selonk é notória. Narlo Rodrigues não segura o jogo. A tendência à atuação mecânica e exagerada roubou-lhe uma arma poderosa: a verdade interior. O resultado em algumas cenas chega a comprometer o espetáculo, tamanha ânsia que Narlo imprime ao personagem. Felice é apresentado à platéia ainda na forma grotesca, pode ser burilado ainda mais. O ator parece não entender o que faz, carece de espontaneidade para arrebatar a platéia com Patrícia Selonk.
Vale lembrar que o Teatro Zaqueu de Melo funciona também como sauna (o sistema de refrigeração custa R$ 25 mil e a prefeitura não tem dinheiro para a aquisição). Quem pretende assistir ao espetáculo vista uma regatinha para aproveitar melhor a peça.
qOut Cry - espetáculo do grupo Armazém Companhia de Teatro, texto de Tennessee Willians, direção Paulo de Moraes, tradução de Maurício Arruda Mendonça. Com Patrícia Selonk e Narlo Rodrigues. De quarta a domingo, às 21 horas, no Teatro Zaqueu de Melo (Av. Rio de Janeiro,113, Londrina). Ingressos de quarta a sexta, R$ 10; sábado e domingo, R$ 12.


