Um grande filme brasileiro
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quinta-feira, 21 de março de 2013
Luiz Carlos Merten<br>Agência Estado 
Pernambuco, o Brasil inteiro cabe numa rua do Recife. É o desafio de "O Som ao Redor", de Kléber Mendonça Filho, que conta a história de trio de seguranças que se instala numa rua da capital de Pernambuco, onde só existem condomínios de luxo. Há algo de misterioso na identidade desses homens, assim como há mistérios (no plural) nas coisas que começam a ocorrer. Umas invasões - serão reais ou produto da imaginação, da paranoia que consome os habitantes das grandes cidades do País?
Kléber Mendonça Filho, crítico e cineasta, adquiriu reputação com curtas tão bons que criaram uma espécie de cobrança - para quando o longa? Kléber gosta de dizer que escreveu "O Som ao Redor" rapidamente, mas isso pode induzir o leitor/espectador a uma conclusão equivocada. Porque, na verdade, "O Som ao Redor" é resultado de longa elaboração. Como diz o autor: "A origem do filme veio do acúmulo de ideias e observações feitas ao longo de muitos anos. Estava tranquilo, com meus curtas, mas havia uma pressão social muito grande pelo longa. E aconteceu de estar perto do prazo final para inscrição em um edital do Ministério da Cultura. Resolvi participar. Escrevi a primeira versão de O Som ao Redor em sete dias, impulsionado pelas ideias que já estavam na minha cabeça e pela data-limite."
Mas o filme não saiu em seguida. Não foi selecionado. Kléber o inscreveu em outro concurso e aí teve tempo de elaborar mais o roteiro. O filme tinha muitos personagens e ele não queria que parecesse que havia uma intenção por trás daquilo tudo. "Queria que fosse orgânico, que a história mudasse de uma pessoa para outra sem parecer de forma arbitrária. Foi o maior desafio, porque há todo um histórico de filmes corais, nos quais várias coisas acontecem e existem muitos personagens. Achar essa organicidade era o ponto principal e eu costumo demorar na montagem, até nos curtas isso acontecia."
Outra questão era o realismo. "O realismo pelo realismo para mim é chato, não tenho tanto interesse na filmagem. Por isso comecei a agregar um certo estilo de fazer cinema, em cinemascope e com planos fixos. Comecei a gostar da ideia de fazer um filme absolutamente mundano, com personagens normais e no Recife, mas com uma câmera que você não associaria ao realismo social". E ele queria que os personagens fossem representativos de uma ordem social. "Tem o engenho, o usineiro, a classe média. Tudo cabe nessa rua. Tem as invasões, que são importantíssimas."
A menina tem um sonho - a casa é invadida. No começo, o espectador pensa que é real. "O pesadelo da garotinha é clássico e universal", avalia o diretor. "Um sueco pode ter um pesadelo daqueles, mas no Brasil há quase uma questão cultural da invasão. Ela é muito forte na nossa cultura, palavras como invasão e arrastão têm peso na língua portuguesa. Evocam temores sociais. A cena da garotinha me levou a beirar o limite do filme de terror."
A montagem demorou um ano e quatro meses. "Passei por todas as fases do processo. Durante oito meses, achei que não daria certo E então, em junho de 2011, o filme deu um clique. Foi como se, num quebra-cabeças, tivesse encontrado a peça certa."
É impossível falar sobre O Som ao Redor sem situá-lo no contexto do cinema pernambucano. "É um grupo de pessoas que faz filmes muito pessoais, sem a preocupação de mercado nem bilheteria. Não há nenhum projeto que eu conheça que tenha a pretensão de ser uma comédia romântica ou um filme de aventura. São filmes por vezes estranhos, mas que participam de festivais, ganham prêmios e chegam ao mercado. E são filmes que se comunicam, dialogam entre si - Doméstica, de Gabriel Mascaro, do qual gosto muito, Boa Sorte Meu Amor, de Daniel Aragão, que ganhou Brasília."
Sobre o som: "É fundamental, fizemos uma pesquisa bem interessante, com muitos sons que eu próprio gravei." Sobre o ator: "Irandhyr Santos é o mais próximo que temos de um ator do Método (o estilo de representação criado no Actors Studio por Elia Kazan e Lee Strasberg). O poder de concentração dele é assustador. Às vezes não sabia se me dirigia ao Irandhyr ou se o personagem havia tomado conta dele".


