Nova York - O U2 não fez a esperada ‘‘limpa’’ e Alicia Keys passou a perna na concorrente India.Arie na 44ª edição do Grammy, que aconteceu anteontem. O mais importante prêmio da música internacional teve uma das cerimônias mais arrastadas da história, com apresentações ruins e poucas surpresas. A banda irlandesa, que estava indicada a oito estatuetas, ficou com quatro, enquanto a cantora de 20 anos brilhou ao receber cinco prêmios, mas decepcionou com uma performance para lá de cafona. O Brasil, desta vez, ficou de fora da festa, com a vitória de Ravi Shankar na categoria de world music.
O U2 ganhou os prêmios de melhor gravação do ano (‘‘Walk On’’), melhor álbum de rock (‘‘All That You Can’t Leave Behind’’), melhor performance pop com vocais de um grupo (‘‘Stuck in a Moment You Can’t Get Out Of’’) e (vá entender!) melhor performance de rock com vocais de um grupo (‘‘Elevation’’).
Keys, que pode ser considerada um dos grandes talentos jovens da música atual, usando-se Britney Spears e N’Sync como base para comparação, levou as estatuetas de melhor canção, melhor performance feminina de r&b com vocais, melhor música de r&b (todas por ‘‘Fallin’’’), melhor artista novo e melhor disco de r&b (‘‘Songs in A Minor’’).
O problema foi a apresentação da pobrezinha, que começou bem, ao piano, cantando seu único hit, e seguiu com uma dança inspirada em tango - mas que contava também com um dançarino. A afetação da performance cheia de bailarinos e o exagero da maquiagem da cantora chegaram a despertar dúvidas sobre seu talento real no palco.
Ainda sobre as premiações: quase todo mundo saiu feliz. Até Nelly Furtado foi premiada com a pegajosa ‘‘I’m Like a Bird’’ (melhor performance feminina pop com vocais). Janet Jackson (melhor gravação dance por ‘‘All For You’’), Sade (melhor álbum pop com vocais, por ‘‘Lovers Rock’’), Lenny Kravitz (melhor performance masculina de rock com vocais, por ‘‘Dig In’’) e Destiny’s Child (melhor disco de r&b com vocais de um grupo, por ‘‘Survivor’’) foram alguns dos vencedores. A única grande surpresa foi a da trilha sonora do filme ‘‘E aí meu irmão, cadê você?’’, na categoria de álbum do ano (o disco também arrematou a de melhor trilha).
Mas, fora a performance constrangedora do apresentador Jon Stewart (do programa ‘‘The Daily Show’’, do canal por assinatura Comedy Central), o Grammy ainda teve números que foram duros de engolir. O N’Sync dividindo o palco com o rapper Nelly e a colaboração de Destiny’s Child e Alejandro Sans (uma performance que deveria ter sido mostrada no abortado Grammy Latino de 11 de setembro) mostram que não existem mais barreiras na indústria musical quando a questão é tentar ganhar um pouco mais de dinheiro.
As apresentações de Billy Joel e Tony Bennett, Dave Matthews Band e Bob Dylan foram apenas chatas, enquanto a da turma da trilha sonora de ‘‘E aí meu irmão, cadê você?’’ foi a decisão politicamente correta da Academia Nacional de Artes Fonográficas de agradar o público country.
O melhor da noite foi a versão de ‘‘Lady Marmalade’’, da trilha de ‘‘Moulin Rouge - Amor em Vermelho’’, com Christina Aguillera, Lil’Kim, Mya, Pink, Missy Elliott e, de surpresa, Patty LaBelle, a cantora da música original. Levantou o público e provou, mais uma vez, que a outra Academia, a de artes e ciências cinematográficas de Hollywood, deveria ter olhado melhor para a trilha do filme (‘‘Lady Marmalade’’, por não ser uma composição original, não poderia concorrer ao Oscar, mas ‘‘Come What May, com Nicole Kidman e Ewan McGregor, sim).
Outra grande apresentação da noite aponta para uma artista que anda sendo eclipsada pela maquiagem de Alicia Keys e as pernas das meninas do Destiny’s Child. Mary J. Blige, com seu hit ‘‘No More Drama’’, mostrou que o r&b americano pode ter consistência e personalidade - e não apenas produção de moda.
O Grammy deste ano marca o fim de uma fase de pouca ousadia e de repetição de fórmulas na música. Claro, um prêmio de proporções tão gigantescas nunca vai ter um olhar muito cuidadoso aos verdadeiros talentos do mercado, mas, dificilmente a próxima edição vai ter um panorama tão fraco. A mesmice que o evento retratou não deve ser repetida, já que há vários sinais de que a curva da qualidade começa, timidamente, a tomar uma direção ascendente.

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