Um gostinho de Salsa
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terça-feira, 20 de janeiro de 1998
AE-Newsweek 
HAVANA - A visita pastoral do papa a Cuba vai atrair mais atenção para a ilha do que ela já recebeu desde a revolução castrista. E quem conhece a sua rica cultura afro-euro-caribenha acha que já não era sem tempo. Mas, muito antes da chegada do papa, a cultura cubana já tinha sido redescoberta graças, em parte, a um aliado inesperado: o próprio Fidel Castro que, durante anos, fez tudo o que pôde para acabar com ela. Desde que a URSS foi para o espaço, Castro vem tentando desanuviar a atmosfera de romance de Orwell que pesava sobre a ilha, encorajando o turismo e, consequentemente, as artes locais capazes de atraí-lo.
A fusão de tradições artísticas e religiosas hispânicas e africanas - catolicismo e ritos iorubás, trombetas e tambores - criou uma cultura sem igual: apaixonada, mística, letrada, sensual, muitas vezes cheia de auto-ironia. Artistas populares, desde Desi Arnaz até Gloria Estefán, levaram a sensibilidade cubana para os EUA. Na década de 50, músicos cubanos como Machito e Chano Pozo influenciaram profundamente o jazz moderno. E romancistas como Alejo Carpentier, José Lezama Lima e Guillermo Cabrera Infante contribuíram para o renascimento da literatura latino-americana.
Arquivo FolhaCelia Cruz
Autenticidade A determinação de Castro de reabilitar a imagem - e as finanças - de sua revolução coincidiu com a busca de autenticidade numa cultura global que estava sendo cada vez mais dominada pelos estúdios Disney, o McDonalds e a Microsoft. Os artistas cubanos gostam de trabalhar com grafismos fortes, cores quentes e materiais primitivos como casca de árvore e argila. Os escritores cubanos têm uma tendência semelhante ao terra-a-terra, ao enérgico, ao barroco. E a salsa afro-cubana, que o mundo inteiro anda dançando, parece que vai virar o reggae da década de 90. Muito de seu charme está na inocência de uma música feita pelo povo, para o povo, sem a contaminação da cultura corporativa americana. Como diz a produtora discográfica Rachel Faro, de Nova York: Música, em Cuba, não cheira a dinheiro.
Para escritores, artistas e músicos, é um tempo ao mesmo tempo confuso e promissor. Cuba é uma sociedade pós-utópica, diz Gerardo Mosquera, provavelmente o crítico mais influente do país. Temos uma economia neo-liberal e um regime político de esquerda. E os artistas ficam bem no meio desse braço-de-guerra. Dentro da frágil economia cubana, as artes soa um grande negócio, pois trazem as divisas estrangeiras de que todos necessitam. Pintores que vendem para colecionadores estrangeiros entregam 50% do que ganham ao governo.
Dançando Os grupos de dança cubanos entram na dança também. Durante anos, Castro reprimiu a música popular, em favor de conservatórios no estilo soviético. Hoje, grupos conhecidos como Los Van Van têm contratos com gravadoras estrangeiras e tornaram-se nomes privilegiados - pelo menos até irem longe demais. Em agosto passado, o governo suspendeu por seis meses o grupo La Charanga Habanera por comportamento vulgar no palco. Mas a verdadeira razão parece ter sido uma canção que dizia: Ei, manga verde, agora que estás madura, por que não cais de vez? O governo não gostou do subentendido (afinal de contas, Fidel usa uniformes verdes) e o grupo só não se estrepou por causa do dinheirão que ganha gravando para o exterior.
Kike GonzalezTeatro de los Elementos
Os escritores cubanos não contam com essas vantagens financeiras e os melhores acabam se exilando. As histórias de horror mais conhecidas são as que aconteceram com o poeta Heberto Padilla e o romancista Reinaldo Arenas, que foram para os EUA na década de 80. Arenas, que é homossexual, foi preso por infringir as regras da literatura oficial e da moralidade convencional.
Seus manuscritos foram confiscados e ele acabou indo parar na Flórida só com a roupa do corpo. Padilla chegou a trabalhar para o governo mas, depois de se pronunciar a favor do exilado Cabrera Infante, foi demitido, preso e torturado. Acabou confessando desajuste psicológico e cumpriu vários meses de trabalhos forçados. Permitiram-lhe sair do país depois que o senador Ted Kennedy e o escritor americano Bernard Malamud fizeram uma campanha em sua defesa.
Fragilidade De acordo com a romancista Zoé Valdés, de 38 anos, as coisas não mudaram. Antes de sair de Cuba, em 1995, o manuscrito de seu livro Yocandra no Paraíso do Nada teve de ser contrabandeado para fora do país. Se não fosse pelas razões políticas, as cenas de sexo explícito que há em Yocandra já o teriam tornado impublicável num regime puritano e paranóico como é o castrista. Valdés disse à Newsweek: O regime é muito frágil. Tem medo dos intelectuais e, por isso, é muito opressivo. Podem te prender, te torturar. Ela conta que, por volta de 1991 ou 1992, puseram a poeta María Elena Cruz Varela no meio da rua, obrigaram-na a mastigar e engolir o manuscrito de seus poemas e, depois, mandaram-na para a prisão por dois anos.
Até poucos anos atrás, os artistas plásticos mais importantes eram também os emigrados. Os que ficavam em Cuba conseguiam, no máximo, participar de exposições patrocinadas pelo Estado, em pequenas galerias do bloco soviético. Mas, hoje, a atenção do mundo das artes volta-se para artistas como Manuel Mendive, um padre de Santero que trata a temática dos rituais afro-cubanos com uma sensibilidade bem típica dos primeiros modernistas. Ou para os membros da geração que hoje está por volta dos 30 anos e se dá o nome de erva daninha, por ter conseguido crescer no solo pouco hospitaleiro de Cuba. É gente como a gravurista Belkis Ayón, que explora as imagens de uma sociedade religiosa africana secreta, ou o escultor Kcho, obcecado pela imagem da balsa, o bote que os cubanos usam para tentar fugir da ilha. Uma instalação típica da artista Tania Bruguera é ela comer terra, ajoelhada diante da bandeira cubana, com um esqueleto de carneiro dependurado no pescoço, uma mistura de pós-modernismo e multiculturalismo que é considerada bem na moda. E agora que Castro parece estar abrindo algum espaço para os artistas, os curadores e críticos não se sentem tão culpados em dar a ele o seu apoio tácito. Colecionadores com bom faro, como o Peter Ludwig, dono de uma fabrica de chocolate, estão fazendo ótimos negócios aproveitando a fome de Cuba por moeda estrangeira.
Insatisfação É um mistério por que Fidel não cai de pau em cima de artistas como Bruguera pois, a julgar pela simbologia de seus trabalhos, ela não anda lá muito satisfeita com a vida que leva. Talvez seja pelo dinheiro que ela ganha com eles. Talvez seja porque as bandas de salsa já lhe estão lhe dando água pela barba que chegue. Ou talvez ele já tenha percebido que a hostilidade da comunidade dos emigrados contra os seus colegas que preferiram ficar em Cuba já lhes pode tornar a vida bem dura, sem que ele precise se preocupar. Os músicos que moram em Cuba não ousam ir tocar em Miami e a pressão dos anunciantes cubano-americanos impede que seus discos sejam tocados nas estações de rádio hispânicas. Por muito tempo o principal divulgador de música latino-americana nos EUA, Ralph Mercado, manteve os grupos cubanos fora de seus festivais de salsa, por medo de irritar anticomunistas linha dura como a cantora popular Celia Cruz. Quando os músicos de jazz cubanos vão se apresentar nos EUA, muitos colegas emigrados recusam-se a ir vê-los.
Para muitos artistas exilados, porém, Cuba continua sendo Cuba. Sinto-me alienado do atual regime, mas não da cultura e da história da ilha, diz o escritor Gustavo Pérez Firmat que, hoje, mora na Carolina do Norte. A gente sente que Cuba é um projeto inacabado, sente-se frustrado diante de suas possibilidades inalcançadas. Nisso, se não em outras coisas, Fidel e os artistas cubanos, onde quer que eles morem, acabam concordando.
Por David Bates, Brook Larmer, Tom Masland, Peter Plagens, Yahlin Chang e Ray Sawhill, da Newsweek


