Um giro no planeta música
Ranulfo Pedreiro
De Londrina
Enquanto as estéticas musicais que predominam no mercado fonográfico demonstram falta de fôlego pela repetição excessiva de fórmulas, as tendências alternativas estão pipocando no Brasil. Muitos músicos aliam conhecimento acadêmico com o empirismo da música de raiz e pesquisa, como os violeiros Roberto Corrêa, Brás da Viola e Paulo Freire; a cantora Ana Salvagni; o falecido instrumentista José Gramani e grupos como Anima e Terra Sonora.
Em todos esses trabalhos o folclore surge como uma referência importante. Alguns, como o Anima e o Terra Sonora, avançam fronteiras. Mesclando músicas de domínio público de vários povos do mundo, o Terra Sonora vem surpreendendo com uma originalidade extensiva a um conhecimento musical que dificilmente chega aos nossos ouvidos. Em seu balaio cabem melodias que vão da Transilvânia a Campinas. Formado em Curitiba, o grupo está em Londrina para duas apresentações que marcam a abertura da III Londrina Mostra Folclore.
A terceira edição do evento vem encorpada numa espécie de prévia para o ano 2000, quando se tornará um festival. No ano que vem a mostra será transformada no Festival de Folclore de Londrina, e fará uma ligação com o Festival de Teatro, que é realizado em junho; e o de Música, em julho, comenta Valdir Clóvis, assessor da Secretaria Municipal de Cultura, promotora do evento.
Londrina é uma cidade nova que recebeu muita informação dos imigrantes. A idéia é mostrar essas informações e como elas foram se transformando e se incorporando ao dia-a-dia. É uma cidade que aproveita um pouco de cada cultura, comenta Clóvis. Entre os destaques da mostra deste ano estão Brás da Viola, Inezita Barroso e a Orquestra de Viola Caipira.
A heterogeneidade do evento - que vai ministrar oficinas de Carnaval, encontro de companhias de Folias de Reis e vários shows - fica explícita no show de abertura, hoje às 11h30 no Calçadão.
O grupo Terra Sonora - que se apresenta também amanhã, às 10h30 no Cine Teatro Ouro Verde - tem uma história interessante. Seu fundador, o flautista Plínio Silva, vinha de uma experiência com um grupo de música histórica, principalmente medieval. O projeto não deu certo, e Silva resolveu abrir o leque. Foi então que passou a ouvir e transcrever composições tradicionais e populares de vários povos.
A coisa européia antiga acaba se limitando ao Mediterrâneo, embora tenha muita influência árabe. Com esse trabalho que passei a desenvolver descortinou-se o horizonte e a possibilidade de sair de uma música acadêmica e partir para algo que não se encontra, comenta.
Plínio Silva já tem 230 temas transcritos que abrangem todos os continentes, a maioria de tradição oral. Esse material não se consegue em lojas, não está editado, ressalta. Com um acervo que abriga cerca de 300 CDs de música de todo o mundo, o instrumentista descobriu um novo panorama de trabalho.
Para formar o grupo, Plínio Silva partiu de uma escolha cuidadosa, também para evitar qualquer conflito pessoal. A formação conta com Liane Guariente e Andréa Bernardini na voz e violão, Giampiero Pilatti na flauta transversal, Rogério Gulin na viola caipira e Adriano Mottin na concertina. Esses músicos se alternam em instrumentos tão diversos quanto desconhecidos - como o aduf, o whistle, o sino tailandês, as clavas, o caxixi, a kalimba e muitos outros.
Com um número limitado de instrumentos, a saída do grupo foi adaptar algumas sonoridades à tecnologia disponível. O processo inclui várias audições do tema por todos os integrantes e pesquisas geográficas e históricas, para que os arranjos se configurem no formato final.
Seria muita pretensão sermos fiéis em termos instrumentais, seria impossível. A idéia é pegar o instrumental e a experiência de cada um para mostrar o tempero do local de origem da música que estamos tocando, acrescenta Plínio Silva.
O trabalho, associado ao apoio do pesquisador e compositor José Eduardo Gramani resultou no disco Terra Sonora - Música vocal e instrumental de várias regiões do mundo. O CD teve uma produção cuidadosa - já faturou o Prêmio Sharp de melhor encarte, concorrendo com os discos de Chico Buarque e Adriana Calcanhoto -, foi lançado pelo selo Cântaro e estará à venda durante as apresentações do grupo em Londrina.
Neste projeto, acabamos estudando história, geografia e assim vamos ligando as coisas, acompanhamos a cultura musical caminhando pelo planeta, assegura Silva. O disco mescla espontaneidade - foi gravado ao vivo em estúdio - e simplicidade, realçando as melodias de cada faixa. Com músicas da Mongólia, Lapônia, Venezuela, Albânia, Noruega, Armênia, Grécia, Brasil, Espanha e Zimbábue, entre outros, o CD é um pequeno resumo da cultura tradicional destes países. É um verdadeiro contraste entre sonoridades e culturas, com ótimos resultados.
Ao driblar estéticas industriais, o Terra Sonora surpreende com soluções criativas, guiando o ouvinte por culturas diversas e melodias que escapam aos padrões que nos acachapam diariamente. Coisa rara nos dias de hoje.
Shows com o grupo Terra Sonora - Hoje, às 11h30 no Calçadão, em Londrina. Amanhã, às 10h30, no Cine Teatro Ouro Verde (Rua Maranhão, 85), dentro da série Concertos Matinais. A entrada é franca. Os shows fazem parte da programação da III Londrina Mostra Folclore, promovida pela Secretaria de Cultura e Prefeitura de Londrina. O disco do grupo Terra Sonora será vendido nos locais de apresentação por R$ 20,00. O CD pode ser encomendado pelo telefone (41) 372-8055 (ou pelo e-mail [email protected]).





