Qualquer ranking confiável de melhores canções brasileiras de todos os tempos traz inevitavelmente pelo menos uma música de Cartola (1908-1980) entre as dez primeiras elencadas Gênio do samba, o fundador da Mangueira é autor de clássicos imortais como ''As Rosas não Falam'' e ''O Mundo é um Moinho'', para ficar nas mais reverenciadas
Morto há 30 anos, de câncer, nunca deixou de inspirar gerações Carioca do Catete, ele viveu numa época em que só autores de ficção científica poderiam imaginar um futuro sombrio para a Cidade Maravilhosa no qual morros eram dominados por narcotraficantes e milícias armadas
De família pobre, Angenor de Oliveira deu duro como servente de obra ganhando o apelido famoso por usar um chapéu para se proteger do sol e do cimento que caía de cima Era um chapéu-coco, mas o apelido Cartola pegou assim mesmo Nas horas de folga, frequentava rodas de samba e de malandragem
Em 1928, juntou-se a Carlos Cachaça e outros bambas para fundar a Estação Primeira de Mangueira Foi ele quem deu nome e escolheu as cores verde e rosa para a escola Durante toda a década de 30, teve sambas gravados por ídolos do rádio como Francisco Alves, Mário Reis, Silvio Caldas e Carmen Miranda Tudo parecia correr bem até que, no início do anos 40, Cartola abandonou misteriosamente o samba e caiu no ostracismo
Ficou dez anos desaparecido, provocando especulações até sobre sua suposta morte É célebre o episódio em que o jornalista Sérgio Porto (o Stanislaw Ponte Preta) o encontra lavando carros em Ipanema, atividade que executava de dia enquanto à noite trabalhava como vigia de um prédio
Cronista de maior prestígio da época, Porto decidiu ajudá-lo a retomar a carreira musical Mais tarde, o compositor abriu com sua segunda mulher (Dona Zica) o mitológico bar Zicartola, no centro do Rio de Janeiro - um ponto de encontro dos bambas do samba onde Paulinho da Viola (que Cartola considerava seu discípulo) faria sua primeira apresentação
De bem com a vida, Cartola voltou a ser gravado por cantores de prestígio e podia ser visto desfilando sua altivez no bairro da Lapa, na comissão de frente da Mangueira, em rodas de samba, em aparições na TV e como ator do filme ''Ganga Zumba''
A década seguinte seria marcada pela primeira gravação do artista: em 1974, aos 66 anos, ele finalmente entrou em estúdio para registrar seu primeiro disco como cantor e compositor Ao ser lançado, pelo selo Marcus Pereira, o álbum obtém enorme sucesso de público e crítica Dois anos depois, saiu o segundo disco, também aclamado
Apesar da pouca instrução, Cartola trazia um talento inato para compor versos sofisticados, dentro da melhor linhagem poética da canção brasileira Quando morreu, em 1980, Cartola já estava consagrado como o maior sambista do País

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