Um gelo que não derrete
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Os homens são especialistas em confusões. Podem confundir arrogância com coragem sem maiores problemas. Podem até misturar ambas as coisas e transformá-las em heroísmo. Um heroísmo míope que, em alguns casos, pode lavar as mãos com sangue.
Estas confusões, que já foram responsáveis por inúmeras mortes, assumem sua forma simbólica na tentativa do explorador inglês Robert Falcon Scott em ser o primeiro homem a colocar os pés no centro geográfico do Pólo Sul, na Antártida.
O monólogo ‘‘Dead Men’s Shoes’’, apresentado no Festival Internacional de Londrina pela companhia ‘‘Brith Gof’’ do País de Gales, retoma a trágica coragem arrogante de Scott, construindo um trabalho híbrido de teatro e documentário.
O capitão Robert Scott colocou os pés no pólo em 1912. Ao chegar lá, carregando atrás de si toda a prepotência do imperialismo britânico, descobriu que outro explorador, o norueguês Roald Amundsen, havia fincado sua bandeira dias antes. Com a moral a zero, a expedição, durante a volta, acabou morrendo de frio e fome.
Em ‘‘Dead Men’s Shoes’’ o ator Mike Pearson narra a história num espaço cênico restrito a um corredor. Caminha de um extremo ao outro simbolizando uma viagem sem volta. Corredor este formado pela platéia de um lado, e de outro por uma extensa tela retangular, onde são projetadas, simultaneamente, imagens fotográficas originais da expedição.
Totalmente fundamentado no texto (em inglês), o espetáculo ganha sua sustentação no designer de Mike Brookes, onde o espectador, recebendo fragmentos visuais do real, não consegue abarcar com os olhos a totalidade da extensão da tela. O olhos só podem exercer domínio sobre o que está em seu foco. Mas a mente comporta outras possibilidades ilusórias, onde os objetivos pessoais tomam para si o ego do mundo.
‘‘Dead Men’s Shoes’’ é um espetáculo longo e monótono. Nada acontece. Tudo que poderia acontecer já aconteceu, com Scott, entre o frio desértico e a ambição, na Antártida.

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