Um garimpeiro de temas malditos
Antonio Paulo Benatti é autor do livro ''O Centro e as Margens Prostituição e Vida Boêmia em Londrina 1930-1960'' (editora Quatro Ventos), fruto de sua dissertação de mestrado em história, em 1996, na Universidade Federal do Paraná. Apregoando a investigação de temas malditos, ele defende uma história da cidade e da região que não se limite à ladainha liberal dos ''pioneiros'' ou ao seu contraponto ideológico, a história dos trabalhadores. ''A história do sacrifício já deu o que tinha de dar: precisamos de uma história do gozo'' proclama ele.
Houve um período da história de Londrina em que a zona de prostituição não foi apenas um lugar para a comércio de sexo, mas um espaço para intensas manifestações culturais. Como ocorria isso?
Até a década de 60, a zona do meretrício, patrocinada indiretamente pela Companhia de Terras Norte do Paraná, era uma das instituições sociais, políticas e econômicas mais importantes de Londrina. A zona era uma linha de fuga do trabalho e da família, era a república da sociedade do prazer. Havia uma espécie de pacto moral em torno dos ambientes de boemia e de prostituição. Falo, evidentemente, da prostituição feminina: não sei se existia prostituição masculina, talvez houvesse, e esse é um tema que merece ser pesquisado, ao lado de tantos outros temas-tabus.
Como a sociedade convivia com estes espaços?
Basicamente, a zona do meretrício era uma cidadela confinada às margens da cidade, um território alternativo, complexo, às vezes violento, e com códigos morais próprios. E a zona era amplamente ''tolerada'': havia uma margem política e historicamente variável de tolerância, apesar do policiamento e do zelo moralista e religioso. A verdade é que a zona, principalmente na fase áurea da Vila Matos, estava plenamente integrada ao cotidiano regional e funcionava como um termômetro da economia cafeeira. Isso, digamos, do fim do Estado Novo até o começo dos anos 60, que foi a fase de auge do café.
Estou para dizer que o comércio do sexo era talvez a atividade menos importante da zona, por paradoxal que pareça. Isso porque os inúmeros bares, bordéis, restaurantes, cabeleireiros, tabacarias, jornaleiros, etc. funcionavam simultaneamente como ambientes lúdicos, boêmios, culturais, além de eróticos, evidentemente. É claro que o sistema girava em torno do ''amor venal'', do sexo-mercadoria, mas isso não quer dizer que a zona fosse um grande açougue do prazer, ou que a sociabilidade se limitasse à relação prostituta-cliente. A zona era um universo muito complexo, como todas as grandes instituições humanas. Daí que a zona de prostituição era, sim, um espaço privilegiado para manifestações culturais as mais variadas.
Dá para citar alguns momentos especiais?
Havia os shows musicais com nomes importantes da música popular dos anos 50, vivia-se ainda a era do rádio, e grandes cantores e cantoras como Nelson Gonçalves, Roberto Luna e Ângela Maria apresentavam-se nas casas. Havia espetáculos de dança, performances teatrais, etc. Novamente digo que é uma pena que não existam pesquisas mais detalhadas sobre essas questões; os historiadores acadêmicos e os eruditos da província deveriam assuntar mais essas coisas extremamente sérias e importantes. Havia ainda uma boemia intelectualizada, composta por jornalistas, profissionais liberais, políticos, funcionários públicos, gente instruída das classes médias e das elites. E havia também muita gente de fora, viajantes, políticos, corretores de café, gente nômade e um pouco vagabunda. Então, as discussões políticas, literárias, filosóficas, existenciais misturavam-se ao som dos boleros e ao espocar do champanhe. Era uma época de orgia - a orgia do café -, conforme tentei mostrar em meu livro.
Os cantores vinham à cidade exclusivamente para se apresentar nas boates da zona, ou eram contratados para shows em palcos ''respeitáveis'' e aproveitavam a visita para dar uma esticada aos bordéis?
Ao que parece, os artistas que se apresentavam aqui geralmente faziam shows nas duas cidades, a do ''centro'' e a das ''margens'', cidades que afinal se complementavam mais do que se opunham. Esses shows eram divulgados pelos jornais locais, inclusive pela Folha de Londrina, que tinha uma coluna diária de notícias do mundo do rádio (fofocas de artistas, comentários de discos e programas, etc.). Isso, evidentemente, quando o artista fosse ''respeitável''. É claro que as dançarinas Elvira Pagã ou Luz del Fuego nunca poderiam se apresentar no Cine-Teatro Ouro Verde. Aliás, Luz del Fuego foi uma artista muito interessante, maldita mesmo: dançava nua com uma jibóia de estimação, uma cobra enorme que enrolava seu belo corpo. Vi umas fotos muito bonitas. Inclusive, a vida dela foi filmada, com a Lucélia Santos no papel principal. Luz del Fuego dançou numa dessas boites de Londrina, não me recordo qual, talvez a Boate Colonial.
Em sua pesquisa, você deve ter se deparado com episódios pitorescos envolvendo os artistas na zona. Quais deles você destacaria?
Há muitas histórias memoráveis, a maioria trágicas, muito trágicas, como a do cantor Roberto Luna ou do jazz-man Booker Pittmann, ou de muitas prostitutas surradas, assassinadas, suicidadas. Ou homens apaixonados que também se suicidavam, pois era uma época em que ainda existia romantismo e heroísmo. A história do prazer tem necessariamente que escrever a história da dor, que é o seu complemento necessário nessa tragédia chamada vida. Ah, a zona tem muitas histórias. Sabemos uma ínfima parte delas. Dá muitos livros e muitos filmes. A Tizuka Yamasaki, que está produzindo um filme em Londrina, podia fazer cenas na rua Rio Grande do Sul ou na Vila Mattos!(N.S.)





