Um galã solitário e sensível
O ator paranaense
Herson Capri
fala sobre o
personagem Álvaro,
que interpreta
na novela
Era uma Vez...
Rodrigo Teixeira
Luiza Dantas/Carta Z NotíciasHerson Capri: É incrível como os personagens masculinos estão mais sensíveis nas novelas
TV Press
A vida pacata do interior não atrai nem um pouco o ator Herson Capri. Mesmo assim, este curitibano de 46 anos arregaçou as mangas e foi aprender a aplicar injeções em cavalos. Ele não queria ficar só na teoria para interpretar o veterinário Álvaro, protagonista da novela Era Uma Vez..., de Walter Negrão. Fiz questão de aprender práticas reais da profissão. Seria terrível ficar só no plano imaginário, garante o ator. Mais que criar semelhanças com o seu personagem, que é viúvo há dois anos e meio e vive as voltas com a criação de quatro filhos, Herson prefere ressaltar as vantagens de se fazer um protagonista durante o longo período que uma novela fica no ar. Acho os protagonistas leves e agradáveis de interpretar. Os heróis fazem exercitar o que de mais correto existe nos seres humanos, filosofa.
Era Uma Vez... é a 19ª novela do ator em 31 anos de carreira na televisão. Mas ainda assim, Herson diz que não pode se dar ao luxo de tirar férias para fazer cursos ou tentar uma reciclagem. Não por uma questão financeira. O ator diz que seu salário da Globo - ele tem contrato fixo - é suficiente para sustentar a sua família, mesmo quando não está trabalhando. Mas ficar longe da tevê é para quem ganha milhões de dólares. Porém, o maior problema de fazer só novela é a insatisfação artística, admite o ator.
Bem-humorado e solícito, Herson acredita que um dos fatores que faz Era Uma Vez... atingir a boa média de 30 pontos de audiência no ibope é a maneira de escrever de Walter Negrão. Para o ator, Negrão consegue criar histórias que refletem os dramas primordiais tanto de jovens e adultos quanto de pessoas da terceira idade. O bonito é que as relações dos personagens são totalmente baseadas no amor, avalia o ator. Apesar do romantismo, Herson ressalva que seu personagem está longe de ser um homem fraco e dominado pelas mulheres. O Álvaro sofre de solidão, pois é viúvo há mais de dois anos. Qualquer pessoa ficaria carente, justifica o ator.
A proposta de Walter Negrão foi fazer uma novela que explorasse os universos infantil, jovem e adulto. Não é uma conjugação complicada?
Herson Capri - Não, porque o Negrão está fazendo um trabalho magnífico. Ele divide a trama para o público de todas as idades com perfeição. Era Uma Vez... é quase uma novela de época. O ibope também está dentro do esperado. Geralmente começamos os capítulos com 18 pontos e no final a novela atinge 30 pontos em média. O Walter consegue captar os dramas primordiais de cada faixa etária. Além disso, há um rigor bastante técnico com o texto, o que facilita o trabalho do ator. Mas o mais bonito é este despejar de amor, carinho e humanidade em toda história. As emoções baseadas na afetividade são o que mais gosto nesta novela. O amor corre no texto do Negrão.
Mas você não acha que esta fórmula açucarada está gasta?
Herson Capri - Na verdade, acredito que é uma fórmula perigosa. Se tiver algo para criticar pode ser a falta de ousadia para fazer esta novela. Era Uma Vez... não traz nenhuma novidade em termos de dramaturgia, mas o importante é que funciona, apesar de ser um pouco óbvia. No fundo fico pensando porque não fazer uma novela para todas as faixas etárias. Não existe nada de mau nisso. Mas o importante é que estou adorando voltar a fazer um protagonista bom de coração.
O seu último personagem era um vilão, o Marco Monterey, em Anjo de Mim, em 1997. É mais confortável fazer o protagonista ou o vilão?
Herson Capri - Os dois têm vantagens e desvantagens. O vilão geralmente é o eixo condutor da história. Toda trama precisa de um antagonista, seja no teatro ou na tevê. Senão a história não anda, não se desenvolve. O vilão existe para atrapalhar, por isso mantém viva a história e é fundamental. Talvez a desvantagem de fazer um vilão seja por eu precisar trabalhar dentro de mim coisas ruins. É preciso passar a verdade sobre as maldades humanas com sinceridade. Para realizar esta tarefa com sucesso, não tem como o ator não se machucar por dentro. Não tem como interpretar um assassino ou um estuprador sem se desgastar. Não é um exercício agradável. O vilão me consome mais.
E os protagonistas?
Herson Capri - Os protagonistas são leves e mais agradáveis de se interpretar. Exercita ao máximo tudo o que há de bom, correto e honesto no ser humano. Mexe com os melhores valores cristãos e faz bem à alma. Algumas vezes, porém, a verve participativa do personagem bonzinho é menor. Mas este não é bem o caso do Álvaro. Até pouco tempo, achava mais difícil fazer os heróis. Com o passar dos anos, interpretar vilões foi se tornando desagradável. Agora acho mais difícil. A relação do público também é bem diferente. O vilão chama mais a atenção.
O fato do público ser atraído mais por vilões torna a tarefa de interpretar protagonistas menos conturbada?
Herson Capri - Sem dúvida. Quando eu fazia o personagem Sérgio Motta, em Partido Alto, em 1984, às vezes alguém gritava na rua que eu era ladrão e canalha. Mas graças a Deus, nunca aconteceu de alguém me agredir fisicamente ou algo mais radical. Mas sei que isso acontece, apesar de hoje em dia o público já distinguir bem melhor o personagem e o ator. Acredito que o segredo para atingir o público não é fazer o antagonista ou o protagonista, mas compor bem o personagem.
De que forma você se preparou para interpretar um veterinário?
Herson Capri - Fiz aulas de equitação na Hípica, no Rio. Aprendi vários procedimentos com o Luis Eduardo, que faz a assessoria para o elenco da novela. Já apliquei injeção e tirei sangue dos cavalos. Tentei aprender a realidade, não queria só ter uma visão técnica. Uma vantagem é que sempre gostei de montar e me interessei por cavalos. É um animal extremamente bonito, útil e interessante. Mas tem algumas tendências do Álvaro que não consigo me identificar plenamente, como viver em cidades pequenas.
Por que não?
Herson Capri - Nunca ficaria longe dos teatros, cinemas e acontecimentos políticos das metrópoles. Apesar de ser curitibano, estou há 15 anos no Rio e adoro São Paulo. São as duas cidades que mais admiro no Brasil. Além disso, no Rio se produz a maioria das novelas, principalmente através da Globo. Já em São Paulo, o forte é o teatro e também o mercado para comerciais. Digamos que o Rio seja como Los Angeles e São Paulo a nossa Nova York brasileira. Mas não deixo de notar que cidades menores, como Curitiba e outras capitais do Nordeste, têm uma população menos impessoal. Elas se encontram mais e constroem laços afetivos com maior facilidade. Creio que tenho os dois lados, mas não moraria em uma cidade muito pequena, como o Álvaro.
Você emenda uma novela na outra desde Felicidade, em 1991. A composição dos personagens não fica prejudicada ou influenciada um pelo outro?
Herson Capri - Estou próximo da minha vigésima novela em 31 anos de profissão, somando a carreira na tevê, teatro e cinema. A verdade é que eu não posso me dar ao luxo de ficar um ano e meio parado para me reciclar e fazer workshop. Tenho três filhos para manter. Este luxo é para quem ganha milhões de dólares. Nossos salários são baixos quando comparados com os do Primeiro Mundo, principalmente os Estados Unidos. Na Europa, nem tanto. Por isso, ser ator no Brasil é trabalhar constantemente. Para ser sincero, o salário que recebo para fazer novela dá para viver sem problemas. A questão de fazer só novelas é a insatisfação artística.
Fazer cinema e teatro é mais satisfatório?
Herson Capri - Não é bem isso. Depende muito dos atores que estão contracenando com você. Interpretar o Álvaro está sendo satisfatório porque estou em cena com grandes atores. Era Uma Vez... tem o elenco escolhido pelo Jorge Fernando, que tem a manha para reunir os atores certos. Contracenar com a Andréa Beltrão e a Drica Moraes está sendo muito legal, porque as duas tem um lado de humor muito forte e as cenas mais sérias ficam mais leves interpretadas por elas. Além de serem excelentes atrizes. O Cláudio Marzo nem precisa dizer que é um dos melhores atores da tevê brasileira e o Elias Gleiser é uma delícia de pessoa. Falo destes quatro porque é com quem estou gravando mais. Mas, na verdade, estou gostando cada dia mais do Álvaro. Ele é viúvo e tenta criar da melhor maneira os quatro filhos. É incrível como os personagens masculinos estão mais sensíveis nas novelas.
Com exceção de Benedito Ruy Barbosa, os autores brasileiros criam personagens masculinos mais fracos que os femininos. O Álvaro sofre este estigma?
Herson Capri - Não, o Álvaro não é fraco nem dominado pela namorada. O Álvaro sofre é de solidão, pois está há dois anos e meio viúvo. Qualquer um ficaria carente.





