A cena é quase popular. Três amigos no balcão de um bar bebendo cerveja e jogando conversa fora. Um deles é Ray, escriturário de uma firma de seguros, outro é Lenny, um verdureiro, e Vince, mecânico e vendedor de carros. Após algum tempo entra Vic, agente funerário e Jack, açougueiro. Assim o grupo fica completo, cinco velhos amigos em torno dos 60 anos de idade. Encontram-se todo final do dia para beber cerveja e bater papo. Moram no mesmo bairro de Londres.
Seria uma cena comum e popular se não fosse um pequeno detalhe. Vic entra no bar trazendo as cinzas de Jack numa pequena caixa. Falecido no dia anterior, Jack deixou seu último pedido por conta dos amigos: ser cremado e suas cinzas serem lançadas no mar.
Vic se ajeita no balcão e pede uma cerveja. A caixa passa de mão em mão até descansar sob o balcão ao lado de canecas de cerveja. Estão reunidos para cumprir, unidos, o desejo do companheiro Jack. Com um carro emprestado especialmente para a ocasião, um suntuoso Mercedes azul, colocam o pé na estrada. Seguem para Margate, cidade balneária próxima de Londres.
Esse é o início do romance ‘‘Últimos Pedidos’’ do escritor inglês Graham Swift, que acaba de ser lançado pela Editora Companhia das Letras. Aos 50 anos de idade, Graham Swift é considerado um dos grandes escritores ingleses da atualidade. ‘‘Últimos Pedidos’’ ganhou o prêmio Booker Prize de 1996. Narrando as pequenas coisas que constroem a vida de pessoas comuns, com seus acertos e desacertos, Swift reflete sobre a amizade e a dignidade que ela comporta.
A história de ‘‘Últimos Pedidos’’ é narrada por sete vozes, sete personagens, sete visões diferentes. Além dos cinco amigos, há duas esposas, Amy e Mandy. Partindo da trama geral, cada personagem entra em sua história pessoal revelando uma complexa teia de relações. Tudo é exposto como uma radiografia do ser humano. Marcas do bem e marcas do mal, além de marcas que não podem ser enquadradas em nenhum dos dois pólos.
À caminho do mar, numa viagem de apenas um dia, cada personagem vai desfiando a própria vida com a consciência de que a vida é finita. O sentimento da morte como certeza matemática leva cada um a rever o passado na tentativa de ajustar o presente. Todos possuem suas próprias razões para explicar a posição que suas vidas assumiram.
Graham Swift parece indicar que a vida do homem comum está tão próxima da verdade que não é possível para ele percebê-la. A verdade de que as coisas são perecíveis. Não há o distanciamento necessário para vê-la em sua real dimensão, então ele simplesmente a vive inconscientemente.
A viagem realizada pelos quatro amigos de copo lembra uma autêntica e humorada peregrinação. Tratam as cinzas como se fossem realmente Jack, seu corpo sofreu algumas alterações, diminuiu de tamanho, mas na realidade continua o mesmo Jack de sempre. E para descansar em paz, deseja que suas cinzas sejam lançadas no que acreditava abraçar a felicidade, num balneário.
Graham Swift é o tipo de escritor que possui a sensibilidade de apresentar histórias e sugerir que o leitor dimensione seu conteúdo. Outro romance de sua autoria, ‘‘Terra D’água’’ (Companhia das Letras, 1992), embora percorra caminhos distintos, também semeia humanidade em suas páginas, deixando a cargo do leitor a escolha entre colher com as próprias mãos aquilo que o coração não vê mas os olhos sentem.
‘‘Últimos Pedidos’’ é um retrato de pensamentos e sentimentos cotidianos, comuns e simples, sem teorias da realidade. Apresenta a rede de relações entre as pessoas, não o indivíduo por si só: ‘‘...e as cinzas que carreguei em minhas mãos, que eram o Jack que uma vez esteve vivo, são carregadas pelo vento, são rodopiadas pra longe pelo vento até as cinzas se transformarem no vento e o vento se transformar no Jack de que nós somos feitos.’’
• Últimos Pedidos - de Graham Swift, Editora Companhia das Letras, tradução e posfácio de José Antonio Arantes, 302 páginas, R$ 26,00.

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