Curitiba - Ele fez o que muita gente já pensou em fazer pelo menos uma vez na vida: deixou o trabalho, os amigos, destruiu todos os seus documentos e foi morar no meio do mato. Para resumir bem, foi isso que Jesus Santoro, um dos mais expressivos fotógrafos que já passaram pelo Paraná, fez há pouco mais de uma década. Hoje, aos 78 anos, voltou à Curitiba para um tratamento de saúde. O Museu da Imagem e do Som (MIS), que guarda grande parte do acervo fotográfico de Santoro, aproveitou a sua passagem pela cidade para gravar um depoimento com ele. No registro, que ainda não tem data para ser mostrado ao público, o fotógrafo conta parte de sua curiosa história.
Jesus Santoro é descendente de espanhóis, por isso o primeiro nome, tão comum na Espanha quanto José no Brasil. O nome, porém, pode ter conferido uma certa tendência religiosa ao fotógrafo. Natural de Uberaba (MG), passou toda a adolescência num seminário. ''Queria ser papa. Larguei a religião quando me disseram que para isso tinha que ser italiano. Agora, meu maior desgosto é ver um papa polonês'', brinca Santoro em seu depoimento. Devido a seu estado de saúde, ele não pode falar com a reportagem. Pode estar debilitado fisicamente, mas seu humor e sua memória continuam ótimos, garantem os amigos.
Santoro conviveu com a nata intelectual de Curitiba, em plena efervescência cultural da cidade, entre as décadas de 50 e 70. Era amigo de Poty Lazarotto, Miguel Bakun, Wilson Martins e Marcel Leite, para citar alguns. Aprendeu fotografia no seminário, com um padre francês. Foi lá também que aprendeu a falar latim, francês, russo e começou a dar os primeiros passos na arte culinária. Já era um jovem culto quando chegou na cidade, aos 20 e poucos anos.
Foi quando conheceu o também fotógrafo Franciso Kava, já morto, com quem montou a Prisma Realizações, uma das primeiras empresas fotográficas e de publicidade em Curitiba. A Prisma se tornou uma espécie de ponto de encontro para os artistas da época e referência para o trabalho nessa área em todo o Estado. ''Quem se interessava por cinema e fotografia, parava por ali'', conta o fotógrafo Nego Miranda, um dos frequentadores assíduos do local. Além de registrar boa parte da vida política do Paraná, a Prisma fazia a montagem de filmes institucionais e documentários. Santoro chegou a participar do filme ''Moradas'', de Silvio Back, atuando como diretor de fotografia.
''Ele também ensinou a maioria dos fotógrafos que hoje atua em Curitiba'', revela o fotógrafo João Urban que por muitas vezes utilizou o laboratório de Santoro. Nas cerca de três décadas que Jesus Santoro trabalhou como fotógrafo, ele reuniu um acervo gigantesco, composto por fotos de cidades paranaenses; manifestações folclóricas; personalidades; indústrias; estradas; plantações e festas religiosas no interior do Estado. No final dos anos 80, Santoro doou parte desse acervo cerca de 15 mil negativos em acetato para o Museu da Imagem e do Som. Os outros milhares de negativos se perderam no tempo. Quando questionado sobre o material no depoimento que gravou, Santoro diz ''devem estar por aí''.
Depois de doar o seu acervo particular, ele largou a fotografia e investiu em outro ramo. Chegou a montar três bares, dois em Curitiba e um em Camboriú, no litoral de Santa Catarina. O primeiro, ''Bar Barbaridade'', tinha esse nome porque tinha duas vezes a palavra ''bar'' e montar um estabelecimento desse que também pudesse reunir os amigos para intermináveis discussões culturais era sonho antigo de Santoro. Quando o bar fechou, em meados da década de 80, transformou um antigo vagão de trem num restaurante, no Batel, colocando em prática os dotes culinários desenvolvidos no seminário. Depois disso, sumiu.
''Encontrei ele, morando debaixo de uma lona preta, em um ferro velho de Curitiba'', conta o empresário Guilho Bell Aurélio Camargo, responsável pelo ''resgate'' de Santoro. Camargo, também conhecido como Lelo, o convidou para morar em uma fazenda na Serra do Mar, às margens do quilômetro 47 da BR 277 - que dá acesso às praias. Lá, ele passou os últimos 11 anos, vendendo milho e banana na beira da estrada e fazendo artesanatos em madeira e pedra. Dedicou-se também a criar peças e tabuleiros de xadrez, paixão antiga do fotógrafo. ''De vez em quando ele encontrava com alguém da Renault e começava a falar francês. As pessoas ficavam espantadas de ver um velho, maltrapilho como ele estava, tão culto'', diz Lelo.
O curioso é que nem Lelo, nem os amigos mais próximos sabem dizer o motivo de Santoro ter tomado a decisão de deixar o trabalho, rasgar todos os documentos que revelavam a sua identidade e virar uma espécie de eremita. ''Ele é muito discreto, não fala sobre isso'', observa a diretora do MIS, Maria Amélia Junginger.
Filho único de pais separados, Santoro se desligou dos parentes quando veio ao Paraná. Os pais morreram há tempos, assim como a maior parte dos amigos de sua geração. Também nunca casou nem teve filhos. Completa, no próximo dia 17 de abril, 79 anos. Guarda consigo, um segredo que muitos gostariam de saber: se a vida simples, distante das parafernálias tecnológicas e da convivência com outras pessoas traz mesmo uma espécie de revelação do sentido real da vida.
O depoimento de Santoro foi gravado na casa do amigo Lelo, na semana passada, com uma equipe de convidados e voluntários formada pelo Museu da Imagem e do Som, que ainda atravessa problemas financeiros para desenvolver projetos como este. O conteúdo de três horas das fitas de áudio e vídeo vai ser editado e em breve, mostrado pelo MIS.

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