Rala, rala, rala...Dorico da Silva! Não poderíamos lembrar de outra maneira a não ser emprestando a saudação e um dos muitos bordões de um dos últimos repórteres fotográficos da velha guarda londrinense - um caso raro na profissão em que, depois de 30 anos, entre ida e volta da Folha, chegou a hora de, como diriam os antigos ''espalhar o pé''.
Com o mesmo bom humor, Dorico deu essa semana, o primeiro passo em direção ao primeiro dia de aposentadoria, afirmando que é do tempo do flash a pólvora. ''Até que colocaram uma máquina digital na minha mão e tive que aprender a usar. Costumo dizer que vai chegar o dia em que a gente fotografará com a mente e as mulheres irão engravidar por telepatia'', brinca Dorico.
Para ele, a hora de pendurar oficialmente as chuteiras, com a expectativa de continuar trabalhando como free-lancer, é um momento difícil.
''É uma bênção proporcionada pelo trabalho, podendo contar com um salário fixo para o resto da vida. Por outro lado, eu não sei o que vou fazer. Acontece a mesma coisa com a gente, quando acaba a gasolina do carro e veículo fica parado. Amanhã, quando eu levantar, não sei o que vou fazer. Muitas vezes, eu perdia o sono para não perder a hora'', afirma o fotógrafo, que aos 61 anos de idade, diariamente antes de enfrentar as pautas, costumava assistir à missa na capela da Catedral.
É hora de lembrar o começo da carreira aos 17 anos de idade, quando deixou de trabalhar de servente de pedreiro para fotografar.
O padrinho de casamento do um cunhado de Dorico tinha uma produtora de fotografia, em frente ao Banco do Brasil, no Calçadão. Durante o dia, o lugar funcionava como banca de revistas e, à noite, uma equipe ficava registrando o pessoal desfilando na rua, uma opção de diversão na época.
''Um dia, ele me disse que me ensinaria a fotografar. Respondi que não sabia nem colocar a máquina no pescoço. Ele devolveu, dizendo que tudo tinha a primeira vez'', conta o fotógrafo.
Nas três décadas de fotojornalismo, Dorico fotografou artistas como Elis Regina, jogadores, entre os quais Pelé e Tostão, e os presidentes da República, Ernesto Geisel e Garrastazu Médici, mas também pessoas comuns e anônimas, que lhe renderam algumas histórias.
Rindo das situações em que, a paciência e a personalidade conciliadora fizeram a diferença, Dorico lembra que, na época em que o ator Carlos Eduardo Dolabella era galã de TV, esteve em Londrina e quase foi flagrado de cueca pelo fotógrafo que, na base da conversa se livrou de uns safanões dos seguranças.
''Também fotografei tanta p.... Na época fazia fotos na zona do meretrício, que era frequentada por fazendeiros no auge do café na região. Uma vez, fui ao banheiro de uma dessas casas e achei um relógio de ouro dentro da patente. Guardei no bolso e contei para o meu patrão, que acabou comprando o relógio. O dinheiro, eu gastei comprando um par de sapatos, um terno, uma gravata e uma camisa'', comenta Dorico que, como repórter fotográfico, também chegou a ser protagonista de algumas cenas, começando a trabalhar na FOLHA na primeira fase, auxiliando o fotógrafo Wagno Barra Rosa, sendo contratado em 1973 pelo gerente geral na época, Álvaro Grotti.
''Uma vez, fui ao Paraguai acompanhando a jornalista Ana Marta, que ia fazer uma matéria sobre o Balé do Country Club. A gente nem se preocupou com credenciais. Na hora de fotografar a apresentação fiz tudo certinho, mas quando virei a câmera para tirar uma foto do presidente Alfredo Stroessner me perguntaram com um fuzil e uma baioneta apontados para mim: 'Onde o senhor pensa que vai?' Depois da confusão, o grupo me pediu para substituir um integrante do elenco, que ia se fantasiar de rei. A fantasia de Carnaval pertencia ao Clóvis Bornay. Já tinha tomado umas e outras e, como demoraram para me chamar, puxei a cortina do palco, entrei dançando, e perguntei: 'Nós não vamos entrar? Eu quero mostrar a minha fantasia'''.
À frente da máquina fotográfica e entre muitas histórias, Dorico conviveu com grandes nomes do jornalismo paranaense.
Época em que o fusca do jornal costumava voltar de Cutitiba em 3h30, usando até luz giroflex para ganhar tempo na estrada e conseguir realizar coberturas, que o fotógrafo não esquece.
Dorico aproveitava a viagem do veículo, que costumava sair às 4 horas da manhã para entregar jornal em Joinville, fotografava os primeiros 15 minutos de um jogo, voltando a tempo da fotografia ser publicada.
''Fazíamos o percurso tão rápido que as pessoas costumavam dizer, quando viam o carro do jornal: 'Lá vem, o piloto da FOLHA. Não tinha ninguém para competir com eles''', recorda o fotógrafo.
As fotos que produziu ao longo da carreira ajudaram não só a contar, mas também a mudar algumas histórias.
Durante uma partida do campeonato paranaense de futubol nos anos 70, entre o Londrina e o Maringá, Dorico flagrou um chute de um presidente do time maringaense no árbitro, depois que o ídolo Carlos Alberto Garcia marcou um gol aos 45 minutos do segundo tempo.
Embora, o presidente em questão tenha alegado que a foto seria uma montagem, a repercussão da imagem provocou a interdição do Estádio Willie Davids.
Duas imagens também ficaram para sempre nos olhos azuis do fotógrafo, conhecido por suas imagens posadas, destacando que existe sempre um limite a ser respeitado pelos fotógrafos.
''Uma delas foi de uma desocupação. Ao receber os oficiais em seu rancho de sapé, uma mulher ainda preparava um frango para o almoço de domingo. Ao ser comunicada sobre a desapropriação, ela fez uma cara resignada. Meia- hora depois, a mudança estava em cima do caminhão'', contou Dorico, lembrando também de outra foto, recente, em que um bombeiro segura nos braços uma criança vítima de um acidente.
Dorico diz que não fazia distinção de editorias, mas que guarda um lugar especial para a Folha Rural, que sempre lhe trouxe recordações da infância e adolescência em Poço Bonito, em Ibiporã.
Ganhador de um prêmio da loteria estadual, que a inflação se encarregou de comer tudo, sobrando apenas uma máquina de lavar comprada com a pequena fortuna, Dorico empresta à nova geração de fotógrafos a sua maior riqueza: um pouco de sua experiência.
''Para salvar uma foto não adianta querer ir na frente das outras equipes, querendo pegar o melhor ângulo. É preciso aprender a respeitar os demais colegas'', afirma.

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