Francelino França
De Curitiba
As revelações terrificantes contidas no último livro do Novo Testamento, o Apocalipse, acusam um prognóstico de desgraças para os destinos da humanidade. São João, o evangelista, vislumbra o flagelo enigmático e terrível, em que não há redenção. Apenas choro e ranger de dentes. Partindo do livro do Apocalipse, Fernando Bonassi, dramaturgo, juntamente com Antônio Araújo, diretor, levam à cena, até amanhã, no Presídio de Piraquara, o terror em forma de espetáculo.
Ninguém sai imune à encenação do grupo Teatro da Vertigem, que não faz teatro para patricinhas se divertirem. Fernando Bonassi não concede perdão para o público, diluindo com ácido corrosivo os nossos supostos idealismos. ‘‘Apocalipse 1,11’’ (referência aos 111 mortos do Carandiru) é de extrema intensidade e violência.
O fato de inserir seus espetáculos em ambientes supostamente redentores (igreja, hospital e presídio) confere solidez à proposta de Araújo. Aprisionar o público nos domínios do presídio sufoca. Chega a ser surrealista presenciar o público sendo conduzido resignadamente. A pedreira das almas foi alocada nos limites de Piraquara.
No presídio, João é conduzido a testemunhar os pavorosos sinais do Apocalipse, abandonando a cidade em busca de Nova Jerusalém. O público segue João por celas, corredores e pátio. Por força de um riso nervoso, as 100 pessoas vivenciaram momentos extremamente constrangedores. No cenário adaptado, o inconsciente coletivo fétido emergiu, principalmente na boate montada num dos pavimentos do presídio.
O bem e o mal foram pintados com a mesma tintura. Mariana Lima e Roberto Áudio comandam cenas grotescas, provando não haver limites para o desprendimento dos atores do grupo. As figuras do presente ficaram configuradas como bandalheiros, inescrupulosos, dançando ao som de Ray Conniff e Cid Moreira. Foram escarrados na cara do público palavrões de toda ordem, cenas de sexo, degradação da prostituição, falsos profetas. Monstros criados pela mídia foram crucificados... Enfim, um flagelo cênico.
Na missa-show, os elementos-surpresa foram se alternando diante dos olhos de João. Nos 500 anos do Brasil, um casal de índios foi explorado publicamente na missa-show, com direito a cenas de sexo explícito (sem camisinha). Vale ressaltar a cena do massacre, em que os degredados foram mortos e os espectadores postos num paredão. Foi estarrecedor.
‘‘Apocalipse...’’ é destrutivo, é chute no escroto, pontapé na cara. Se teatro fosse somente esse genialmente produzido por Antônio Araújo, já teria desaparecido há séculos. Quem procura entretenimento por trás do nome Antônio Araújo vai se arrepender. Ainda bem que existem firulas de outros encenadores. É preciso respirar de vez em quando.