Um firme toque feminino
PUBLICAÇÃO
domingo, 08 de dezembro de 1996
Roni Lima<br>Agência Folha 
Com 13 livros publicados, entre eles A República dos Sonhos, a escritora Nélida Pi¤on foi escolhida a nova presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), justamente no momento em que a instituição se prepara para comemorar, no próximo ano, os seus 100 anos. Será a primeira vez no mundo que uma mulher presidirá oficialmente uma academia de letras. A novidade já rendeu a Pi¤on pedidos de entrevistas para o jornal francês Le Monde e o espanhol El Pais.
Vencedora em 1996 do prêmio Juan Rulfo, o Nobel da América Latina, pelo conjunto de sua obra, a escritora chega ao posto máximo da sisuda ABL por ter demonstrado, na avaliação dos outros imortais, que é boa administradora. Desde agosto, quando o ex-presidente, o filólogo Antonio Houaiss, quebrou uma perna, Pi¤on assumiu interinamente o cargo. Ela tem andado muito bem. É competente e zelosa, disse Josué Montello, outro ex-presidente.
Com 40 integrantes, chamados de imortais, a ABL tem apenas três mulheres: Rachel de Queiroz, Lygia Fagundes Telles e Pi¤on. O centenário de fundação será comemorado em 20 de julho de 1997. Eu era conhecida só pelo meu lado de escritora. As pessoas não sabiam que eu adoro a realidade concreta, afirmou. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida por Nélida Pi¤on à Agência Folha.
Qual é a sua visão da literatura brasileira que se faz hoje?
Nélida Pi¤on Acho que temos autores importantes, com um conjunto de obras muito apreciável. Mas para ser formar um grande escritor são
necessários pelo menos 20 anos. Então, o que me preocupa é saber se os jovens talentosos, que são muitos, vão ter a paciência de se devotar à obra como um copista medieval. Porque a tentação do mercado é violenta. De algum modo, o escritor brasileiro, o escritor contemporâneo, corre o risco de alienar parte de sua criação por força do mercado, da tentação de fazer dinheiro. Não sei até que ponto em alguns autores a estética já está formando um estranho conúbio com o mercado.
É muito emocionante ser a primeira mulher a presidir uma academia de letras no mundo?
Nélida Pi¤on Eu estou honrada, mas absolutamente serena. Estou, isso sim, sentindo a responsabilidade, porque vai ser um ano muito atípico, com muitos acontecimentos, efemérides. Promover situações que ponham a academia em evidência (pelo seu centenário).
Sua candidatura é um símbolo da ascensão da mulher?
Nélida Pi¤on Claro. É um símbolo muito bonito e muito grato para todos nós. E é um símbolo também para os acadêmicos. Foi uma coisa absolutamente azeitada, suave. Todos os homens da casa, desde que eu entrei (em agosto), ficaram tranquilos.
Qual a importância hoje da Academia Brasileira de Letras no cenário cultural do país?
Nélida Pi¤on Se nós temos 500 anos de Brasil, este país do século 19 ter engendrado essa academia me parece surpreendente. Nenhum país da América Latina teve uma academia com essa estatura. E não é só estatura intelectual, cultural. É também surpreendente como essa academia teve membros que criaram um império. Isso aqui é um patrimônio excepcional.
Mas você não concorda que a academia tem uma imagem externa negativa, de que, para ser imortal, vale mais articulação política do que propriamente qualidade literária?
Nélida Pi¤on Não, não concordo. Acho que toda instituição é programada pela paixão dos homens, pelos antagonismos, pelas ambiguidades humanas. Evidentemente, todas as instituições acertam mais ou acertam menos. Mas acho que a Academia Brasileira de Letras tem sempre presenças notáveis. Acontece que as pessoas não sabem muito bem que a nossa academia se inspirou na francesa, que se programou de modo a ter criadores e expoentes. Nós temos criadores de ficção, de poesia. E temos expoentes em áreas distintas, mas sempre ligados à área da cultura, com livros publicados. Acredito que a academia tem quadros representativos.
Qual a vantagem de ser acadêmico?
Pi¤on Nenhuma. A não ser a vantagem pessoal de fazer parte desse corpo coletivo. A vantagem para mim é a grande honra. É a honra de estar aqui, de fazer parte de um plantel de notáveis, vivos e mortos. Você entra num panteon. Panteon dos vivos e dos mortos.
Mortos e vivos, juntos...
Nélida Pi¤on Estamos muito próximos. Por isso que a academia se preocupa com as chamadas efemérides. As efemérides honram, destacam as ocorrências dos mortos. Sempre falamos dos mortos. Não deixamos ninguém morrer.
Como é o chá das cinco?
Nélida Pi¤on O chá para nós é lúdico, é onde nós nos sentimos muito bem, contentes. Adoramos conversar, somos engraçados. Eu rio muito sentada à mesa. Desde que assumi interinamente a presidência uma marca minha é botar flores na mesa.
Um detalhe feminino...
Nélida Pi¤on Acho que também é um detalhe feminino um bolo, porque chá sem bolo inglês, com passas e frutas cristalizadas, não é chá. Quero uma tradição. Espero que até um dia se chame bolo Nélida. Seria melhor do que ter o nome num livro.


