Um final de semana de bons espetáculos
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 26 de março de 2001
Francelino França De Curitiba 
O público de Curitiba gargalhou até chorar com o besteirol carioca Bárbara não lhe Adora, texto e direção de Henrique Tavares, apresentada no Fringe. O nome da peça é uma paródia-homenagem à crítica teatral brasileira Bárbara Heliodora. No espetáculo, um grupo de atores atormentados pela crítica de Bárbara Eleonora sequestra a jornalista e a obriga assistir à montagem trash de Romeu e Julieta. Os clichês da profissão foram sapateados pelos atores. Mais do que uma metralhada à maneira ácida como Bárbara trata os atores em seus artigos, Bárbara não lhe Adora exorciza a estrutura caótica em que os grupos teatrais brasileiros sobrevivem. O ator Antônio Fragoso foi de longe menos ruim do elenco, desarmando o público com sua verve de comediante.
A estréia nacional no Guairinha de Um Porto para Elisabeth Bishop, de Marta Góes, presenteou o público do FTC com um texto primoroso, uma espécie de respiradouro para as questões do relacionamento afetivo entre duas mulheres. Um Porto trata do choque entre as culturas brasileira e americana. No cenário exuberante de Jean-Pierre Tortil, em que as linhas modernistas imperam, Regina Braga empreendeu um mergulho denso e sensível na alma brasileira. Elizabeth Bishop deixou sua âncora no coração de Lota Macedo Soares e viveu encravada em plena mata.
Marta Góes desenha na imaginação do público um Brasil colocando os pés na modernidade, na visão bem-humorada da americana. Ao mesmo tempo, vai inflando a imagem da Lota Macedo Soares, uma mulher determinada a tirar o país do provincianismo. Ao final, saímos com Lota no coração, curiosos para conhecer quem foi a mulher que ousou desafiar um mundo masculino e conseguiu ser respeitada no limitado mundo político. A atriz Regina Braga apresenta um comovente desempenho ao realizar uma atuação instintiva e segura tecnicamente. No fim de semana, A Mulher Sem Pecado, sob a direção de Luiz Arthur Nunes, estabeleceu uma ligação com o nascedouro da dramaturgia rodriguiana. O diretor optou por seguir à risca todas as indicações do texto de Nelson Rodrigues, instalando a família de Olegário (José de Abreu), numa mistura de catedral e labirinto. Com um inferno ardendo dentro de si, Olegário trafegava pelo palco atropelando a individualidade de todos ao seu redor.
Se as tiradas do genial Nelson Rodrigues deixam o público de Curitiba incomodado, dá para imaginar em 1942 diante de uma platéia casta das obsessões rodriguianas. O espetáculo não peca cenograficamente. Hélio Eichbauer criou um cenário majestoso e clean dando liberdade para as marcações cênicas.
As montagens de textos de NR não admitem meio termo, quando se trata de interpretação. Existe uma linha divisória traçada pela psiquê do ator que o insere no universo rodriguiano ou não. Por isso, nem todos os atores possuem um perfil ideal para enfrentar a empreitada. Ou pelo menos precisam de um trabalho mais intensificado para comungar nesse universo paralelo. Na montagem de Nunes, a atriz Luciana Braga ficou na tangente, deixando em débito sua concepção de Lídia. Deslocada na imensidão do Guairão, a voz infantil a deixou cada vez mais distante do elenco. José de Abreu tem um dínamo na cadeira de rodas, ziguezagueando, desprotegido. Ele é quem segura o elenco, dizendo sobre rodas eu sou o teatro.
O mestre do teatro Tadeusz Kantor morreu e deixou seguidores na Polônia e em palcos de vários locais do mundo. Ele recebeu uma sensível homenagem com o espetáculo Um Réquiem para Tadeusz Kantor, com a Cia. Ariel Theatre, da Polônia, que se apresentou no final de semana, no Sesc da Esquina, na Mostra Contemporânea. A muralha do idioma não se revelou problema, porque o bom espetáculo acontece, independente do idioma. O público se impressionou com as músicas do jovem compositor Bartosz Chadjecki. A orquestra se reuniu num cemitério e as cruzes serviam de suporte para as partituras musicais. Os atores em cena pareciam saltar de uma fotografia antiga. Com os olhares fixos no passado, não compactuavam com o presente em que a ausência de Tadeusz Kantor se faz notar cada vez mais.
Nota do Público
Hugo Abati
Deu para sacar o enredo de Um Réquiem Para Tadeusz Kantor, mesmo porque havia trechos encenados em Inglês. Seria melhor se tivesse legenda eletrônica. Fiquei interessado em assistir porque gosto do trabalho de Gerald Thomas e ele foi influenciado pelo Kantor. Em comparação às outras peças do Festival, dou nota 8 para Réquiem. Gustavo Scheffer, 24 anos, jornalista
Hugo Abati
Nos festivais, acho importante a troca de cultura de vários estados e países. Em Réquiem..., percebi a qualidade da presença dos atores em cena. Não sei tanto sobre a vida de Tadeusz Kantor. É muito abstrato a forma com que eles lidam com a peça. Dou nota 9. Augusto Negrelly, ator
Hugo Abati
A linguagem cênica é universal e Réquiem... foi uma homenagem a um dos inovadores do teatro. Para mim passou a idéia do jovem ator ser o Tadeusz. Tudo funcionou bem. O cemitério como local para o concerto foi uma solução inteligente. Minha nota é 10. Ivo Lopes, 56, professor


