Um filme verde-amareloe cor de sangue
‘‘Orfeu’’ de Cacá Diegues mescla samba com tragédia e emociona o público
Célia Musilli
Cacá Diegues revisita a tragédia grega e traz para a contemporaneidade a história de amor entre Orfeu e Eurídice em filme que teve pré-estréia anteontem em Londrina, no Cine Catuaí 2, e entra em circuito nacional no dia 23. Orfeu, na mitologia, teve permissão de Zeus para encontrar no inferno a esposa Eurídice após a sua morte, sob a condição de não olhar para ela. Como é próprio do amor não resistiu. E viu-a desaparecer para sempre. Além de acabar apedrejado pelas sacerdotisas de Baco, deus do vinho que paira sobre grandes festas como o Carnaval.
No filme brasileiro, a estética da miséria mescla-se ao encanto da batucada e Orfeu ressurge na pele de Toni Garrido - líder do grupo Cidade Negra - que encarna o músico talentoso, puxador de samba e herói da folia que apaixona-se por Eurídice, bela e ingênua, interpretada por Patrícia França. O que se segue é amor e tragédia ambientados no morro. Cenas explícitas de batalha entre policiais e traficantes, traficantes e gente humilde amordaçada pelo medo, tiram o fôlego dos espectadores e desnudam a realidade brasileira. As cenas foram concebidas na medida exata para testar os nervos. Este filme, definitivamente, não foi concebido para ganhar o Oscar. Só o Brasil compreende o Brasil e a estética do desespero.
A poesia da música, das cores e símbolos carnavalescos são o contraponto perfeito para a violência no filme de Cacá Diegues. Joãosinho Trinta e Caetano Veloso pontuam as cenas aparecendo de relance. O primeiro conduzindo o desfile da Viradouro, o segundo de violão em punho, cantando na favela em noite de verão inconfundível.
À poesia, segue-se a tragédia. O inferno do Orfeu brasileiro, onde ele vai encontrar a mulher amada, é um morro de desova de cadáveres. Cenário perfeito para ambientar as trevas. Tomadas do morro, mostrando a grandiosidade e feiúra das favelas revelam a sensibilidade do diretor para traduzir o Brasil para quem não está acostumado aos oceanos da pobreza, em contraste com a Baía da Guanabara, ainda bela. Moderno, este ‘‘Orfeu’’ se passa no Carnaval de 98, e mostra a face contemporânea de personagens mitológicos que já renderam uma outra produção para o cinema, realizada há 30 anos e que levou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1959 (a produção era francesa, com música de Vinícius de Moraes e Tom Jobim). Mais uma vez, nos anos 90, Orfeu reencarna no País em que a tragédia não tem nada de mitológica. O público engole na marra o realismo. Às vezes se enternece. Inútil evitar a emoção marcada violentamente por símbolos verde-amarelos e cor de sangue.

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