Um filme tecido com a vida e a obra
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quarta-feira, 07 de agosto de 2002
Francelino França<br> Reportagem Local 
A mais enigmática das escritoras brasileiras finalmente ganha um documentário. ''Clarice'', o filme, conta a vida e obra de Clarice Lispector num longa-metragem escrito e dirigido por Denise Gonçalves. O projeto ''Clarice'' terá duplo formato: uma versão em película (35 mm) direcionada para o cinema e outra para TV, filmado em digital, com duração de 50 minutos. O documentário terá depoimentos (em cores) e dramatizações (em preto-e-branco), intercalando episódios da vida de Clarice e trechos de suas histórias. A diretora já definiu trechos dos livros. Foram selecionados o encontro de GH com a barata, do livro ''A Paixão Segundo GH'', a galinha do conto ''Uma galinha''.
Foram escolhidas locações em Recife cidade onde a escritora chegou como imigrante ucraniana e passou a infância e no Rio de Janeiro, onde viveu a partir dos 12 anos. ''Eu não sabia que era pobre'', revelou a escritora anos depois ao falar sobre sua infância no Recife. A linha mestra do documentário será a essência de Clarice. Sua conturbada personalidade e o modo como a literatura estava finamente tecida em sua vida. ''A minha intimidade? Ela é a máquina de escrever. Sinto um gosto bom na boca quando penso'', ela dizia. A narração dos textos da escritora será feito por Fernanda Montenegro, admiradora confessa da escritora.
''Clarice'' será produzido por Raiz Produções, de Assunção Hernandes, que produziu ''A Hora da Estrela'', de Suzana Amaral, filme emblemático sobre a nordestina Macabéa. Denise Gonçalves já incursionou no universo clariciano quando dirigiu o curta-metragem ''Ruído de Passos''. O curta participou de diversos festivais no mundo todo (Clermont Ferrand, Toronto, British Short Film Festival, San Francisco e prêmio de melhor atriz em Gramado, em 1996, além do Prêmio Multishow, em 1997).
''Clarice'' está sendo viabilizado por meio das leis federais de incentivo a cultura - Rouanet e Audiovisual - e conta também com a Lei Mendonça. Já tem como parceiros o BNDES, que investiu R$ 146.000 através da Lei do Audiovisual, e está apoiado pelo fundo Ibermedia, que financiou a pesquisa e produção do roteiro.
Já confirmaram participação Nélida PiÀon, Benedito Nunes, Nádia Battela Gotlib (biógrafa de Clarice) e Claire Varin (pesquisadora canadense). Pessoas próximas como o filho, a empregada e as colegas de colégio também participam. Olga Borelli, amiga da escritora, será uma figura importante no documentário. Após a morte da amiga, Olga declarou: ''Clarice tinha uma lucidez muito grande sobre a vida, os problemas sociais e a miséria. Não conseguia viver às gargalhadas. Isso é explícito em sua obra. Ela se escrevia e, nas entrelinhas, passava sua paixão de viver''.
A diretora inclui um depoimento da cartomante que Clarice consultava. Caetano Veloso autorizou para o filme o uso de sua música ''Clarice''. Outros nomes cogitados para aparecer na película são a artista Maria Bonomi e os escritores Lygia Fagundes Telles, Marina Colasanti, Affonso Romano de Santanna e Heléne Cixous, tradutora francesa de Clarice Lispector.


