''Arquivo X'' gerou descendências. Uma delas, nas mesmas polegadas televisivas, foi a discreta série ''Millenium''. Outra, mais recente e hoje disponível nas salas brasileiras, é ''A Última Profecia'' (veja a programação de cinema na página 2), filme de Mark Pellington que explora o lado desconhecido do mistério e a negação de evidências que garantem a existência de extraterrestres. Via de consequência, pensar em ''The Motheman Prophecies''
como um subproduto de série B nascido das fontes estéticas e narrativas da famosa série da TV americana é tão óbvio que deve ser assumido. Mas ao contrário de ''Arquivo X'', com suas obscuras tramas políticas, ''A Última Profecia'' é de outra natureza.
John Kline (Richard Gere) é um pragmático repórter-estrela do ''Washington Post''. Procurando casa para morar, ele e a mulher, Mary, sofrem estranho acidente. Ao volante, ela é vítima de alucinação - pensa ter visto alguma coisa na rodovia -, perde o controle e morre no hospital algum tempo depois. Quando recolhe os pertences de Mary, o jornalista encontra estranhos desenhos, todos recorrentes. Transtornado pela perda, John sofre outro acidente no meio da noite. Socorrido, descobre que se encontra em pequena cidade de West Virginia, a centenas de quilômetros de onde deveria estar. O xerife do local diz a ele que ocorreram vários fatos estranhos na cidade nos últimos tempos, todos trágicos. Alexandre Leek (Alan Bates), especialista em paranormalidade, explica algumas coisas ao cético Klein, que começa a admitir a possibilidade de que, por trás dos acontecimentos, está Mothman (homem-mariposa, literalmente), misteriosa e legendária criatura premonitória de desastre e morte. Durante a investigação, lógica e racionalidade já não são matéria prima para o jornalista.
A partir deste momento, a trama de ''A Última Profecia'' se transforma em ininterrupta sucessão de perguntas sem respostas. Vários personagens são agregados à investigação, agora quase uma obsessão. O filme entra numa espécie de espiral que vai aos poucos desconcertando o espectador, cada vez mais envolvido num enorme esforço para esclarecer aquilo que o roteiro propõe como terror e mensagens de outros mundos. Portanto, não é tarefa simples decifrar por completo a proposta do filme. Como roteirista baseado em fatos supostamente reais ocorridos entre 1964 e 67, o diretor Mark Pellington pretendeu uma combinação de ''thriller'' de horror, enigmas psicológicos, elementos de fenomenologia paranormal e referências extraterrenas, temperando esses ingredientes com suspense e com o convencimento de que, para além da Terra, existem ocorrências que estão muito acima do fácil conhecimento humano - não por acaso o distribuidor brasileiro esperou que ''Sinais'' fosse lançado primeiro, como abre-alas de inequívoca superioridade. A proposta é muito ampla, e ainda maior neste caso, em que o argumento deve ser construído em torno de elipses, sombras tenebrosas e mensagens cifradas.
Mesmo descrito por testemunhas dos anos 60 como ser assustador, alado e com cerca da 2 metros e 20, a criatura - e este é um dos poucos pontos favoráveis a considerar - não é um monstro que inspira pavor ou comete atrocidades das quais é preciso fugir gritando. O homem-mariposa (ou o que o valha) é hipnótico, onipresente e sobretudo invisível. Ele se manifesta através do relato de outros, de vozes ouvidas através de impulsos eletromagnéticos, desenhos feitos em transe e sonhos com cores modificadas. Está mais para presença psíquica. Concluindo a metáfora: o ser não aparece durante o filme, ele é o filme por inteiro. Não que isso melhore o produto final, mas não é uma idéia desprezível, a de que ''A Última Profecia'' tem lá seus cacoetes de filme new age, mesmo levando-se em conta a manipulação formal - uma cinematografia alucinada, filha legítima dos mais discutíveis recursos visuais extraídos do canal Music Television. Vibrações, formas de energia, o budista Gere metido no projeto, o ritmo arrastado indefinidamente: as pistas bastam para caracterizar o empenho zen.
''A Última Profecia'' é vulnerável ainda pela performance de Richard Gere. O ator parece não ter mais que duas expressões em seu repertório de registros: a elevação das sobrancelhas para espanto, admiração ou surpresa e o mesmo balançar da cabeça para aprovação ou negação. Às vezes, em esforço concentrado, ele utiliza ambas ao mesmo tempo. Um espanto.

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