Um filme sobre poder, política e morte
Por que ver e recomendar um drama sobre uma personalidade política que, embora notável, nem brasileira é? Simples, porém inevitável a constatação: diante do biografado François Mitterrand, presidente da França nas duas ultimas décadas do século passado, o espectador trabalha também com a incomoda sensação do vazio. Sim, porque entre outras virtudes, ôO Ultimo Mitterrand", em lançamento hoje na cidade (veja a programação de cinema na página 2), sustenta com elegância a falta que estadistas maiúsculos fazem hoje à cena política. Qualquer cena política...
A figura de François Mitterrand ocupou lugar de intenso destaque na política francesa, dos tempos da Resistência a quase o fim do século 20 como presidente por dois mandatos consecutivos até pouco antes de sua morte. O filme de Robert Guediguian reconstitui, ou melhor, imagina os últimos meses deste político de muita raça, sozinho e atormentado por um câncer doloroso e irreversível, e pela consciência de ter sido quem foi e de haver representado o que representou.
Nome emblemático da esquerda francesa, François Mitterrand recebe aqui dupla aproximação. Como figura pública e como pessoa. Mas o argumento não se perde em adjetivações ou mesuras tanto para um como para outro. Guediguian, diretor marselhês sempre comprometido com o político-social como pano de fundo para dramas vividos pelo proletariado portuário, também sabe problematizar temas transcendentes. Como poder e morte, estruturados a partir da conversa permanente entre Mitterrand e um jovem jornalista que pretende iluminar os capítulos mais obscuros da vida do político. Que era megalomaníaco, calculadamente ambíguo, dotado de maliciosa ironia, vastíssima cultura e refinamento como gourmet.
Todos estes matizes se materializam - ou ainda melhor, se insinuam - no rosto de Michel Bouquet. Além da incrível semelhança física com o personagem real, este sólido ator de teatro vem há mais de meio século encarnando no cinema policiais, espiões ou burgueses de estranhos hábitos, sempre na linha da contenção interpretativa. Mínimo gestual, máxima eficácia, é o lema de Bouquet. Seu trabalho extraordinário se converte na essência deste filme que rende apaixonado tributo à memória de Mitterrand e ilustra um elevando conceito do exercício pleno do poder e da política.
É importante acrescentar que não se trata de um documentário, e nem parece ter sido a intenção. ''O Ultimo Mitterrand'' está concebido como uma refinada alegoria sobre o poder e a morte. É assim que existe, é assim que deve ser louvado. (C.E,L.J.)





